O Que é Pregar o Evangelho (Spurgeon)

O Que é Pregar o Evangelho?

Por Charles Spurgeon

Traduzido livremente por Marcelo Lemos para o projeto ‘Olhar Reformado’.


Há muitas respostas para esta pergunta e, possivelmente, aqui mesmo em minha audiência (apesar de crer que somos bem uniformes em nossas convicções doutrinárias), pode-se falar em duas ou três respostas rapidamente disponíveis a pergunta: O que é pregar o Evangelho? Procurarei, por tanto, responder de acordo com meu próprio entendimento, com a ajuda de Deus; e se acontecer de não ser uma resposta correta, vocês têm completa liberdade de encontrar uma resposta melhor conforme seu próprio discernimento.

I

Pregar o Evangelho é expor cada doutrina presente na Palavra de Deus, e dar a cada verdade sua própria importância. Os homens podem pregar uma parte do Evangelho; podem pregar unicamente uma doutrina do Evangelho; e eu não diria que um homem não prega o Evangelho caso se atenha apenas a doutrina da Justificação pela Fé – “porque pela graça sois salvos, por meio da fé”. Eu o consideraria um ministro do Evangelho, porém é alguém que não anuncia todo o Evangelho. Não se pode afirmar que um homem prega todo o Evangelho de Deus se ele toma partido, consciente e intencionalmente, de uma só verdade de nosso bendito Deus. Este comentário deveria ser muito penetrante e explodir na consciência de muitas pessoas, que, quase como uma questão de princípio, não compartilham certas verdades com as pessoas, devido o fato de elas temer tais verdades.

Numa conversa recente, há cerca de duas semanas, um eminente cristão me dizia: “senhor, sabemos que não devemos pregar a doutrina da eleição, já que ela não tem a capacidade de converter pecadores”. Eu lhe respondi: “Mas, quem se atreve a identificar falhas na verdade de Deus? Você concorda comigo que a eleição é uma verdade e, no entanto,  afirma que não se deve pregá-la! Eu não me atreveria a fazer afirmação semelhante! Considero ser uma arrogância suprema atrever-se a dizer que uma doutrina não deve ser pregada, quando Deus em sua suprema sabedoria desejou revelá-la aos homens. Além do que, me pergunto: ‘O objetivo de todo o Evangelho é converter aos homens?’. Existem certas verdades que Deus entregou para a conversão dos pecadores; porém, acaso não existem outras verdades destinadas a trazer consolo aos santos? Não deveriam estas verdades ser objetos do ministério da pregação, igualmente as demais? Devo tomar partido de algumas e descartar as outras? Não! Deus disse: ‘Consolai; consolai meu povo!’; se a eleição consola o povo de Deus, então devo pregá-la”.

De qualquer forma, não estou convencido de que a doutrina da eleição não seja capaz de converter pecadores. O grande Jonathan Edwards nos diz que, no momento culminante de um de seus avivamentos, estava pregando sobre a soberania de Deus tanto na salvação, como na condenação do homem, e mostrava que Deus era infinitamente justo se enviava os homens ao Inferno; que Ele era infinitamente misericordioso se salvava alguém; e que tudo provinha de sua livre e soberana graça. E ele afirma: “Não tenho encontrado nenhuma outra doutrina que promova tanta reflexão: nada encontra um melhor caminho ao coração do homem que a pregação desta verdade!”. O mesmo pode ser dito de outras doutrinas. Existem certas verdades na Palavra de Deus que estão condenadas ao silêncio, pois segundo o entender de alguns, elas não serviriam para este ou aquele fim. Todavia, cabe a nós julgar a verdade de Deus? Devemos colocar Suas Palavras na balança e dizer: “Isto é bom, isto é mal”? Devemos pegar a Bíblia, amputá-la e dizer: “Isto é palha, e isto é grão!”. Devemos nos desfazer de algumas verdades alegando “não me atrevo a pregá-la!”? Não! Deus não deseja isso! Qualquer coisa que esteja escrita na Palavra de Deus foi registrada para a nossa instrução: e toda ela é útil, seja para repreensão ou consolo, ou para nos instruir na justiça. Nenhuma verdade da Palavra de Deus deve ser ocultada, antes, cada porção dela deve ser pregada segundo seu sentido próprio.

Alguns homens limitam-se, de forma intencional, a quatro ou cinco tópicos que pregam de maneira contínua. Aventurando-se a entrar em suas Igrejas, naturalmente ira esperar que ouvi-los pregar sobre este versículo: “Nem da vontade da carne, mas de Deus”; ou, quem sabe, sobre este outro: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai”. Vocês estão conscientes de que ao entrar nessas Igrejas iram ouvir a respeito da eleição e de como todas as coisas procedem do Pai. Estes indivíduos estão equivocados, tanto quanto os outros, por darem demasiada importância a uma verdade e minimizando as demais. Toda a Bíblia e nada mais que a Bíblia, é a norma do verdadeiro cristão.

Desgraçadamente, muitos formam um círculo de ferro ao redor de suas doutrinas, e qualquer que ouse dar um passo além deste pequeno círculo, não será considerado como portador da sã doutrina.  Neste caso, que Deus abençoe os hereges! Senhor; nos envie mais hereges! Alguns convertem a teologia em uma espécie de cilindro que contém cinco doutrinas que giram de modo indefinido; nunca se aventuram a outros temas. Toda a verdade deve ser anunciada. E se Deus tem escrito em Sua Palavra: “Quem não crer já está condenado”; isso deve ser pregado tanto quanto: “Nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”.

Cada um de nós, a quem foi confiado o ministério, deve procurar anunciar toda a verdade. Sei que pode ser impossível pregar toda a verdade. A alta colina da verdade tem nuvens que encobrem seu topo. Nenhum olho humano pode ver o cume; tampouco algum pé humano o tem pisado alguma vez. Todavia, podemos tentar pintar a nuvem, já que não podemos pintar o topo. Se há nuvens por sobre a montanha da verdade, digamos: “Nuvem e mistério há a seu redor!”. Não neguemos tal fato; e não pensemos em reduzir a montanha de acordo com nossa própria estatura, apenas porque não podemos ver acima dela, ou porque não conseguimos alcançar seu topo. Aquele que deseja pregar o Evangelho deve pregar todo o Evangelho. Aquele que deseja ser considerado um ministro fiel, não deve deixar de lado nenhum aspecto das Boas Novas.
II

Pregar o Evangelho é exaltar a Jesus Cristo. Talvez esta seja a melhor resposta que posso oferecer. Entristece-me saber que, com muita freqüência, pouco se compreende acerca do Evangelho, mesmo entre alguns dos melhores cristãos. Há algum tempo, uma jovem mulher encontrava-se em meio a grande tribulação em sua alma. Ela se aproximou de um cristão muito piedoso, que lhe disse: “Minha querida amiga, deves ir para a casa orar!”. Eu pensei comigo mesmo: nada disso é bíblico. A Bíblia não diz: “Vai para a casa e ora”. A pobre jovem foi para sua casa e continuou sofrendo sua tribulação. O homem lhe disse: “Deves ter paciência, deves ler as Escrituras e estudá-las”. Isso também não é bíblico; isso não é exaltar a Cristo.

Descubro que muitos pregadores estão pregando essa classe de doutrina. Eles dizem ao pobre pecador convencido: “Precisar ir para a casa orar, ler as Escrituras, assistir aos cultos, etc”. Obras, obras, obras ao invés de: “Por graças sois salvos, por meio da fé!”. Eu lhe diria isto: “Cristo deve salvar-te; creia no nome do Senhor Jesus Cristo!”. Não lhe diria a ninguém, nestas circunstancias, que ore ou que leia as Escrituras, ou que assista ao Templo. Eu lhe apresentaria a fé, a fé simples no Evangelho de Deus. Não que menospreze a oração; isso deve vir depois da fé. Não que diga uma única palavra contra o estudo das Escrituras; este é um sinal infalível de ser um filho de Deus. Não que tenha objeções contra ir ao templo para se ouvir a Palavra de Deus; que Deus não me permita tal coisa! Alegro-me vendo as pessoas no templo! Porém, nenhuma destas coisas é o caminho da salvação. Em parte alguma está escrito: “O que assiste ao culto será salvo!”, ou “O que lê a Bíblia será salvo!”. Não li em qualquer lugar: “O que ora e é batizado será salvo!”; mas sim: “Aquele que crer...” – o que tem uma fé sincera no ‘Homem Cristo Jesus’; em sua divindade e em sua humilhação, está livre do pecado!

Pregar que somente a fé salva, é pregar a verdade de Deus. Igualmente, jamais reconhecerei como ministro do Evangelho, alguém que prega qualquer outra coisa como plano de salvação, que não seja a fé em Jesus Cristo. A fé, a fé, e somente a fé em seu nome! Porém, a maioria das pessoas se encontra envolta em suas próprias idéias. Temos impregnado em nosso cérebro tão alto conceito de mérito, que nos é quase impossível pregar de maneira clara e completa a justificação pela fé; e se conseguimos fazê-lo, então as pessoas não conseguem receber tal pregação. Dizemos-lhes: “Creia no Senhor Jesus e serás salvo!”. Porém, eles têm a impressão de que a fé é algo tão maravilhoso, tão misterioso, que é case impossível que a possam alcançar sem precisarem fazer algo mais. Na verdade, essa fé que nos une ao Cordeiro de Deus é um dom instantâneo de Deus, e aquele crê no Senhor Jesus é salvo no mesmo momento, sem qualquer outra exigência.

Ah, meus amigos! Será que não desejamos exaltar ainda mais a Cristo em nossa pregação, e exaltá-Lo ainda mais em nossas vidas? Oh! Que sempre exista um ministério que exalte apenas a Cristo! Oh! Que a pregação sempre o mostre como profeta, sacerdote e rei para seu povo. Que o Espírito manifeste o Filho de Deus a seus filhos através da pregação. Necessitamos ter uma pregação que diga: “Olhai para mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra!”. Pregação do Calvário, teologia do Calvário, livros sobre o Calvário, sermões sobre o Calvário! Estas são as coisas que desejamos!

... pregar o Evangelho não é pregar certas verdades a respeito do Evangelho, não é pregar a respeito das pessoas, antes, é pregar para as pessoas. Pregar o Evangelho não consiste em pregar o que o Evangelho é, mas sim, anunciá-lo ao coração, não por meio de sua capacidade pessoal, mas sob a influência do Espírito Santo.

- Trecho traduzido livremente do sermão ‘Pregar o Evangelho’; pregado em 05 de Agosto de 1855, em NEW PARK STREET CHAPEL.

2 comentários :

  1. Oi Marcelo, estou re-publicar esse sermão no meu blog Projeto Charles Spurgeon: http://projetocharlesspurgeon.blogspot.com/
    Ok?
    abraços
    Armando Marcos

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  2. marcelolemoseditor23 de julho de 2009 11:38

    Fique a vontade, irmão Armando Marcos! Que se multipliquem os eforços para divulgar o Evangelho de Cristo na Net.

    Paz e bem!

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