Oração Versus Encantamento!

Oração Versus Encantamento

oração_encantamento

Marcelo Lemos


- Interessante... quer dizer que você acredita nessa coisa de ‘calvinismo’...

- Pois é...

- Então... você acredita que todas as coisas são permitidas por Deus?

- Não. Acredito que todas as coisas são ordenadas por Deus. Isso vai além de dizer que Ele ‘permite’.

- Hum... Você ora?

- Sim.

- Qual a utilidade da sua oração, se é verdade que Deus decreta todas as coisas?
- Boa pergunta, mas você me deixou curioso sobre uma coisa: Porque você ora?
- Bem, oro para que Deus me abençoe, faça algo em meu favor...

- Em outras palavras, você vê o futuro como uma ‘carta em branco’, sem nada escrito, nada determinado, de modo que, pela oração, e outros esforços, você pretende alcançar um futuro melhor que o presente...

- Por aí...

- Então, as coisas não acontecem segundo a vontade do Senhor?

- Claro que sim!

- Então, porque você ora?

- Porque a oração move o coração de Deus e...

- Espera um pouco.... está me dizendo que Deus muda de idéia quando nós oramos?

- Mais ou menos isso...

- ‘Mais ou menos?’... Vamos lá: quando você ora, o coração de Deus se move, ele muda de idéia, e melhora as coisas para você? Pois bem, na prática, significa que Deus faz a sua vontade, não a dele.

- Errado, pois Deus só vai me atender se for a vontade d’Ele.

- Dê-me um exemplo, sim?

- Imagine que eu quero um carro e oro fervorosamente por isso. Se for a vontade do Senhor, ele me dará o carro, se não for, ele não me dará.

- E o que levará Deus a dar ou não alguma coisa que você pede?

- Ele vai analisar a questão. Primeiro é preciso saber se o meu pedido não fere os mandamentos de Deus. Também é preciso saber se aquela ‘benção’ não irá me prejudicar no futuro. Além disso eu preciso perseverar em orações, jejuns; e algumas pessoas ainda fazem campanhas, votos e sacrifícios.

- Posso concluir, então, que entre o pedido e o recebimento há um tipo de ‘negociação’ entre você e Deus?

- Eu não colocaria nestes termos...

- Tudo bem. Permita-me utilizar uma linguagem mais ‘bíblica’: quando você ora, está, como Jacó, lutando com Deus, tentando conquistar o benefício de ser abençoado.

- Não sei se...

- Vou facilitar um pouco mais: quando você ora, existem condições que você precisa preencher para que a benção desejada venha ou não; ou seja, se Deus analisar a questão e descobrir que você tem condições de receber, você receberá. Do contrário, você não recebe, e fica na ‘prova’ mais alguns dias, meses, anos, décadas...

- Assim está melhor. Mas vejo que você está me enrolado e ainda não me falou o que te motiva a orar.

- Já chego lá, mas permita-me compreender as suas razões. Voltemos ao carro. Se for verdade que Deus vai analisar todos os prós e contras de dá-lo a determinada pessoa, posso concluir que, a priori, Deus não tem qualquer sentimento pessoal (em sua vontade) para não dá-lo a ela. Tudo depende de como ele avaliar a questão (os méritos do pedinte); certo?

- Ah... Humm... Certo...

- Por isso, posso concluir que, em tese, a vontade de Deus é abençoar a pessoa, e só não o fará, caso ela não cumpra algum requisito; ok?

- Ok!

- Então, por conseguinte, implica que quando Ele não abençoa, Ele muda seu desejo original (que era abençoar). No caso de conceder o pedido, significa que Ele foi convencido, movido a isso. Em ambos os casos, a vontade de Deus tem participação apenas passiva, já que é volátil, estando a mercê dos atos humanos. Logo, é o homem que escreve o seu futuro, não Deus.

- Você precisa compreender que há uma diferença entre a Vontade Decretiva de Deus, e a Vontade Permissiva de Deus!

- Vontade permissiva? Já ouvi falar... Significa que Deus permite aquilo que, muitas vezes não O agrada, aquilo que Ele não deseja, apenas permite. Se existe uma vontade permissiva em Deus, a conclusão obvia é que a vontade de Deus não é soberana sobre tudo e todos; implica concluir que, em ultima analise, é a vontade do homem que se faz, não a de Deus. Observe que mesmo quando a vontade de Deus for feita, isso se dará porque o homem resolveu cooperar com Ele...

- Olha, você está me enrolando... até agora você não disse porque um calvinista ora!

- Verdade... Porque eu, sendo calvinista oro? Bem, oro por que reconheço que sou completamente dependente d’Ele. A minha oração não é, ou não deve ser, uma forma de barganhar com Deus, mas sim, um reconhecimento de que sem Ele eu nada posso fazer, ou alcançar.

- Se você orar pedindo um carro, tem alguma esperança de recebê-lo?

- Mais que esperança, tenho certeza de que, sendo Sua vontade, a oração, e todos os meios da graça, irão caminhar para isso.

- Então a sua oração é igual a minha.

- Não, não é.

- Como não?

- Veja, a sua oração pretende mudar o coração de Deus, a minha simplesmente se submete ao que está no coração de Deus. Se eu peço um carro a Deus, tenho pleno conhecimento de que nada que eu faça será capaz de mudar a vontade de Deus, nem mesmo orar.

- Meu filho, então para o calvinista a oração não tem nenhum poder!

- Claro que tem, Jesus disse: “pedi, pedi e abrir-se-vos-á”. Nós calvinistas acreditamos nisso. O que não acreditamos é que a oração mude o coração de Deus, fazendo-O agir em nosso benefício, como numa negociação.

- Isso é loucura! Se tudo está determinado por Deus, a ponto de não ser possível mudar o coração d’Ele, qual a utilidade da oração?

- Vamos pensar no exemplo de Jacó, de quem sabemos ter ‘lutado com o Senhor e prevalecido’. Quando lemos isso, enchemos o peito com a pretensão de que se formos eficazes o suficiente, Deus irá nos atender. A oração, sob tal prisma, é um negócio, uma barganha. O que muitas vezes nos esquecemos é que Jacó não mudou os planos de Deus, em momento algum; ele simplesmente seguiu o roteiro que Deus escreveu. Observe o que diz a Bíblia sobre isso:
“...também Rebeca, quando concebeu de um [filho], de Isaque, nosso pai; porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá o menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú” – Romanos 9.10-13.

- Antes de Jacó ter nascido, Deus planejou tudo. Nenhum desvio, nenhum atalho: nada fora dos planos do Senhor aconteceu. Jacó não poderia fugir, morrer, renunciar, escapar! Jacó, apesar de não ser o primogênito, seria, ali no Vale de Jaboque, ‘transformado’ em Israel – isso porque já fora predestinado por Deus a tal fim, antes mesmo de ter nascido. Aliás, o próprio drama de ‘roubar’ a primogenitura de Esaú fora decretada por Deus, a fim de ilustrar a salvação pela graça, e não pelos méritos humanos. O que, na prática, implica reconhecermos que mesmo a impiedade no coração de Esaú, seu irmão, também fazia parte do Plano do Senhor.

- Você está me dizendo que Jacó não precisava ter lutado com Deus, já que estava tudo planejado pelo Senhor?

- Estou dizendo exatamente o contrário: Jacó não só precisava lutar, mas não tinha como não lutar, uma vez que Deus planejou aquilo. O que estou dizendo é que Jacó não poderia fugir da luta, escolher não lutar, pois neste caso estaria em pauta a sua vontade e não a vontade de Deus. O mesmo princípio se aplica à oração. Não oramos para convencer Deus da nossa necessidade, mas sim, porque todas as coisas estão predestinadas pelo Senhor – é aqui que reside o real poder da oração!
******


Apesar de fictício, o diálogo acima reproduz fielmente a maioria dos diálogos sobre oração que tive com arminianos. Para os contrários ao calvinismo, o ‘poder’ da oração parece ser um grande impedimento; isso porque a maioria das pessoas compreende o ato de orar como algo ‘mágico’ – com o poder de manipular a realidade a nossa volta, segundo o nosso querer.

Não bastasse tal conceito ‘utilitarista’ da oração, ultimamente a Igreja de Cristo tem sido invadida por algum ainda mais pernicioso: a superstição. Segundo os teóricos da religião, existe uma linha tênue entre o que é uma prática religiosa e uma prática ‘mágica’. Na obra ‘O Livro das Religiões’ (Cia. das Letras), Hellern, Notaker e Gaarder explicam:
“Antes de olharmos mais de perto os diferentes ritos, falemos um pouco da magia”.

“Magia ê uma tentativa de controlar os poderes e as forças que operam na natureza. Costuma-se encontrar a magia em contextos religiosos, e é difícil traçar uma linha divisória nítida entre a religião e a magia, entre uma reza e um encantamento. A distinção que mais sobressai é o fato de, na religião, o indivíduo se sentir totalmente dependente do poder divino. Ele pode fazer sacrifícios aos deuses ou se voltar para eles em oração; po­rém, em última análise, deve aceitar a vontade divina. Quando, por ou­tro lado, o ser humano se vale dos ritos mágicos, ele está tentando coagir as forças e potências a obedecer à sua ordem — que com freqüência con­siste em atingir finalidades bem concretas. Desde que os rituais mágicos sejam realizados corretamente, o mago acredita que os resultados deseja­dos decerto ocorrerão, por uma questão de lógica. Se ele falhar, irá cul­par um erro em seu ritual, ou o uso de um feitiço mais forte contra si”.

Que eu não pretenda comparar a oração arminiana com os rituais mágicos e supersticiosos das religiões pagãs. Não me atrevo a tanto, até porque, em tese, o arminiano também se sente completamente dependente da vontade de Deus, ainda que, enquanto formulação doutrinária, isso os conduza a uma teologia irracional e incoerente. O mesmo, contudo, não podemos falar a respeito da religiosidade neopentecostal, que em analise ultima, é fruto da mentalidade arminiana sobre um Deus manipulado pelos merecimentos humanos e rituais místicos.

Não me alegra falar isso. Todos os dias, ao passar em frente a maioria das Igrejas ‘evangélicas’ aqui em São Paulo, e o mesmos se dava em Minas, tenho a impressão de que nada as difere de qualquer terreiro de Umbanda, exceto, talvez, por usarem apenas o nome de Jesus Cristo.

E mesmo o nome de Jesus Cristo não tem tido tanta exclusividade ultimamente. Se você passar em frente a uma Internacional da Graça, por exemplo, verá estampada uma foto do líder da mesma. Parece algo trivial, mas não é. E o simples fato de encararmos uma blasfêmia destas com tanta naturalidade, já é uma denuncia do quanto estamos longe da simplicidade do Evangelho de Cristo.

Certamente existem coisas piores. Como as centenas de pentecostais que correm, literalmente, atrás deste ou daquele ‘profeta’. Os cristãos que fazem questão de receberem a oração desta ou daquela irmã ‘ungida’. E por aí vai. O ponto em comum em todas estas aberrações é a crença em um Deus  que pode ser manipulado pelo homem. Tal crença fatalmente conduz a promoção de personalidades; uma vez que o mérito humano seja fundamental, alguém que aparente ser ‘especial’, ou ‘ungido’, certamente fará um belo sucesso entre os sedentos!

Talvez o leitor me considere exagerado ao comparar a mentalidade neopentecostal com as religiões animistas e pagãs. Da minha parte, o que considero exagerado é a paciência que temos com essa gente, mesmo quando começam a infectar igrejas historicamente separadas de tais erros.

O que você pensa da lista abaixo:
  • Tapete de Fogo; para ser colocado na porta da casa;

  • Diploma de Dizimista; para ser colocado na parede do dizimista fiel;

  • Cobertura Espiritual; comprada a preço de ouro nas mãos de alguns0 ‘apóstolos’ modernos;

  • Óleo de Israel; óleo de soja vendido como amuleto da sorte;

  • Óleo de Mira; óleo de soja, com perfume barato, e vendido como amuleto da sorte;

  • Chave de Davi; comparado a centenas, e vendido como amuleto da sorte;

  • Mesa de Cirurgia Espiritual; ritual de cura onde supostamente o doente recebe o milagre. Vi, assombrado, tal ritual sendo realizado numa Igreja presidia por um amigo pessoal!

  • Troca de Anjo da Guarda; ritual para trocar o ‘anjo mau’ que está sobre a vida do fiel, por um anjo ‘bom’;

  • Sal Grosso; ritual de macumba, vendido aos fieis com linguagem cristianizada;

  • Cântaro; vendido como amuleto da sorte;

  • Sabonete Ungido; vendido como amuleto da sorte;

  • Rosa Ungida; vendida como amuleto da sorte;

  • Rosa do Amor; vendida como amuleto da sorte – melhor que Santo António; já que o último, coitado, deu azar de ser invenção dos Católicos Romanos;

  • Queimar Pedido de Oração; a fumaça sobe aos céus levando as orações...;

  • Arca da Aliança; verdadeiramente idolatrada em inúmeros cultos ‘evangélicos’ em todo o Brasil;

  • Shofar; uma espécie de cifre, utilizado pelos judeus, que o líder espiritual toca, e ao seu som, os fiéis recebem uma alta dose de poder espiritual: comum ocorrerem arrebatamentos (desmaios);

  • Dança Profética; um jeitinho hipócrita que crentes legalistas inventaram para poderem dançar; alegando que é dança para “Jesus” - mais que para Jesus é ‘profética’.

  • Atos Proféticos; vale tudo: quando eu morava em Minas, o pessoal de uma grande Batista alugou um helicóptero para jogar sobre a cidade ‘óleo ungido’. Em outras ocasiões as pessoas urinas nas ruas, alegando que Jesus é o ‘leão da tribo de Judá’, e, como todos sabem, leão demarca território fazendo um gostoso xixi! Já vi de tudo: voto de ficar careca, andar descalço, não fazer a barba, jejum de sexo, jejum de televisão; além de fazer corte ao invés de namorar, etc; etc.

  • Paletó Suado; bem assembleiano este: o pregador pega o paletó ensopado de suor e joga sobre multidão. Também vale jogar o lenço que o porcalhão usa durante o discurso.

Nada disso é cristianismo, é macumba gospel. Doa a quem doer, é a pura realidade. E no cerne todo este lixo religioso encontra-se a idéia de um Deus manipulável pela vontade humana. O ‘deus’ de tais Igrejas em nada difere dos ‘espíritos’ invocados na macumba, ou em qualquer outra religião falsa.

Certamente o arminianismo sério não concorda com tais aberrações, porém, assim como a Revolução Industrial deu origem ao Iluminismo, a tese arminiana é quem favoreceu a introdução da mentalidade pagã (de um ‘deus’ manipulável) no seio da Igreja de Jesus.
“O verdadeiro reconhecimento da soberania de Deus admitirá o perfeito direito que Deus tem de fazer conosco o que Ele bem quiser. Quem se curva perante o beneplácito do Deus onipotente reconhece que Ele tem o direito absoluto de fazer conosco conforme bem Lhe parecer. Se Deus resolve enviar a pobreza, a enfermidade, o luto, então, até mesmo quando o coração está sangrando por todos os poros, ainda assim tal pessoa dirá: Não fará justiça o Juiz de toda a terra?”

“Freqüentemente há luta, porque a mente carnal permanece no crente até o fim de sua peregrinação na terra. Mas, embora lhe haja um conflito no peito, aquele que realmente aceitou essa bendita verdade logo passará a ouvir aquela Voz falando, como no passado falou às turbulentas águas do lago de Genesaré: Acalma-te, emudece! E a tempestade que ruge em seu interior se aquietará, e a alma submissa elevará aos céus os olhos, lacrimosos mas confiantes, e dirá: Seja feita a tua vontade” – A.W. Pink

Graça e Paz!

10 comentários :

  1. Muito bom, excelente!!!

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  2. muito bom o texto pastor.
    Ah, so lembrando o pastor, p favor eu to precisando d ajuda espiritual pastor
    se o senhor puder me ajudar vou ficar alegre pela ajuda
    brigado

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  3. marcelolemoseditor10 de julho de 2009 11:15

    Obrigado pela participação, irmão Diego. Que Deus o abençoe!

    Paz e bem!

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  4. marcelolemoseditor10 de julho de 2009 11:15

    Estou a disposição do irmão, naquilo que o Espírito me capacitar a ajudá-la. Apenas lamento não estar, ultimamente, com acesso constante a internet conforme eu gostaria.

    Em todo o caso, entre em contato comigo pelo seguinte endereço: marcelolemos.editor@hotmail.com

    Paz e bem!

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  5. marcelolemoseditor10 de julho de 2009 11:20

    Amem - 2

    (risos)

    Que Deus o abençoe, irmão Ednaldo!

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  6. e vou precisar muito pastor.
    Muito obrigado

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  7. marcelolemoseditor11 de julho de 2009 12:34

    De nada, fique a vontade.

    Paz e bem.

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  8. Pastor, um pedido, coloque alguma coisa especificamente sobre livre agência, pois tenho certa difculdade em entender o fato de Deus determinar tudo e a nossa livre agência. Desde já obrigado!

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  9. marcelolemoseditor23 de julho de 2009 11:39

    Estarei providenciando, irmão Diego Zwang. Por hora, recomendo a leitura das obras de Vicent Cheug, e o que ele chama de 'calvinismo inconsistente'.

    Graça e Paz!

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