O Pregador e o Papagaio...

O Pregador e o Papagaio

Marcelo Lemos

pregador-papagaio


Paz Marcelo,

Uns dizem que foi com Spurgeon, outros com Bunyan, como não pesquisei a fundo não posso afirmar com toda certeza, mas contam que certa ocasião, ao término de uma pregação, um dos ouvintes dirigindo-se a ele disse-lhe que pregara um bom sermão. Ao que o pregador respondeu: “Não precisa dizer-me isso, o Diabo já cochichou a mesma coisa no meu ouvido antes de sair da tribuna.”.


Achei muito interessante o que você escreveu acerca do seu amigo Talles, parece que temos a tendência de buscar os holofotes, de buscar a aprovação humana através de “glórias a Deus!!!” e “Aleluias!!!” durante nossos sermões, é um tal de “amém igreja?”, ou “quem pode dizer amém?”, que chega a ser chato ouvir algumas prédicas.

Alguns obreiros da minha congregação quando estão escalados para pregar, sempre pregam assim “Deus, aleluia, tirou, aleluia, o povo, glória a Deus, do Egito, aleluia, e , louvado seja o nome do Senhor, os levou, glória a Deus, para, aleluia, uma terra, glória a Deus, que mana, Louvado seja Deus, leite, aleluia, e mel”, ou seja quando você subtrai as doxologias, não resta quase nada e ninguém entendeu quase nada. Não sei quem os ensinou a pregar assim.

O problema é que apesar de haverem algumas “decisões” pouquíssimas se firmam. É tanta vitória nos “sermões” que a igreja tem perdido muitas batalhas e nem tem notado. Sei que o Espírito age APESAR, mas não POR CAUSA disso.

Que o Senhor perdoe a nossa inércia.

Em Cristo,

Ednaldo.

- Resposta enviada ao artigo “Razões Para Não Estudar Teologia”.

Conheci papagaios maravilhosos, outros nem tanto. Chego a ser tentado a dizer que eles são facilmente educáveis, mas o bom senso me impede de ir a tanto. No máximo, o que fazem é registrar algumas combinações sonoras e reproduzi-las dentro de determinado contexto. Certamente algum dono mais dedicado julgará que menosprezo a inteligência emocional de sua falante ave. Mas, meu tema hoje, perdoem-me, é sobre um ser menos inteligente... Refiro-me aos pregadores papagaios.

Apesar de infinitamente menos capazes que as aves, estes possuem inúmeras semelhanças com elas. A começar pela cacofonia. Mesmo que possamos admirar a fala do papagaio, cedo ou tarde nos incomodaremos com sua desagradável dicção, mecânica, repetitiva e destituída de sentimentos. Algumas vezes chega a ser irritante o desmesurado falatório. Conheço alguns pregadores assim: mecânicos e sentimentalmente artificiais, além da pouca capacidade criativa.

Outra semelhança é a falta de discernimento. O papagaio não discerne nada do que diz, apenas repete o que ouviu e gostou. Caso o criador seja um evangélico que viva a dizer “glórias e aleluias”, o papagaio repetirá tais palavras, ainda que não faça a menor idéia do que signifiquem. E quem nunca conheceu um papagaio criado por um sujeito ‘boca suja’? Pregadores sem discernimento são também muito comuns. Gostam de falar, e falam muito, mas não discernem nada do que dizem.

Conheci um determinado pregador, inexperiente ele, que parecia um leão enjaulado. Imaginem os senhores que o mesmo agarrava o microfone com as duas mãos, fechava os olhos, e começava a andar freneticamente de um lado para o outro do púlpito. E como não bastasse, muitas vezes alguém me procurava para dizer: “Reparou como ‘Fulano’ falou coisas que estão no dvd de ‘Sicrano’?”. “Meu querido, para saber disso eu precisaria ter o costume de ouvir o ‘Sicrano’, o que não é o caso. Mas, eu já imaginava que as frases de efeito eram copiadas de alguém!”.

Um dia abordei tal pregador e lhe disse: “Você precisa olhar as pessoas nos olhos...”. “Não consigo, irmão Marcelo” – ele respondeu; “fico nervoso, e se abro os olhos não sei o que dizer”. Compreendi seu drama. Faltava-lhe melhor orientação. Faltava-lhe uma adequada teologia a respeito da pregação. Imagino que para ele pregar era o mesmo que ‘botar fogo na Igreja’, e que ele desejava descer do altar tendo deixado a impressão de que era um homem de ‘poder espiritual’.

Temos aqui um sério problema cultural. O fato é que ao longo dos anos a mentalidade pentecostal foi criando e promovendo este tipo de conceito e expectativa. Por isso, não podemos simplesmente apontar o dedo para tais pregadores. O equivoco é todos, erramos como Igreja neste ponto. Caso a culpa fosse apenas dos pregadores, eventos como o Gideões não ficariam abarrotados de pessoas, ávidas pelo show que normalmente se desenrola no ‘palco’.

Como bem destacou o comentário do irmão Ednaldo, por baixo de tanto barulho, cacofonias e expressões de efeito, dificilmente poderemos encontrar uma mensagem racional, bem articulada, e biblicamente relevante e sadia. Tais pregadores provavelmente se surpreenderiam se descobrissem que o termo “homilética” não tem nada haver com o que fazem.

Foi durante o Iluminismo que se criou o termo “homilética”. Naqueles dias diversas ciências teológicas receberam nomes gregos: dogmática, apologética, hermenêutica, pneumatologia, e assim por diante. O termo “homilética” não aparece na Bíblia, mas é derivado de dois outros termos que estão no Novo Testamento: “homilia”, substantivo que literalmente significa ‘associação, companhia’; e “homileo”, verbo que significa ‘falar’, ‘conversar’.

Se levarmos tal etimologia ao ‘pé da letra’, talvez possamos definir homilética como sendo a arte de conversar sobre a fé cristã com outras pessoas. Gosto de tal definição. Ele nos faz passar bem longe do que muita gente imagina como ‘pregação’ nos dias de hoje, especialmente em alguns redutos pentecostais e carismáticos.

Quando eu converso com alguém sobre determinado assunto, não me é necessário gritar, berrar, dar pulos e fazer malabarismos mil! Antes, eu organizo as idéias, uso ilustrações, faço comparações, mantenho um tom de voz agradável, dando ênfase nos pontos que julgo mais relevantes... Algumas vezes posso conversar mostrando fotos, ou um gráfico. O mais importante é que eu me faça compreender pelo interlocutor. Quantas pregações maravilhosamente práticas e bíblicas teríamos caso metade dos pregadores conversassem conosco sobre o tema do sermão!

Sim! Nada a mais, nada a menos! Apenas conversar sobre o tema do sermão, que evidentemente, deve ser bíblico, tanto na forma quanto no conteúdo. Alías, ser bíblico é uma necessidade precípua do pregador. O apostolo Pedro adverte que “Se alguém falar, fale segundo as palavras de Deus!” (I Pedro 4.11). Veja como é simples a pregação: falar segundo as palavras de Deus! Em outras palavras, pregar é simplesmente se colocar perante o povo de Deus e poder dizer: “Hoje aprenderemos o que a Palavra de Deus tem a nos ensinar sobre isto!”.

Talvez seja útil conhecermos alguns termos gregos que o Novo Testamento utiliza para descrever a tarefa da pregação.
  • KERYSSO

Proclamar, divulgar, tornar público, anunciar. O termo se utiliza para falar de alguém que anuncia uma noticia enviada por um soberano, portanto, trata-se de um arauto. O Novo Testamento se vale deste termo cerca de 60 vezes. Alguns exemplos: Mt 3.1; Mc 1.4; Lc 3.3.Jesus, por Sua vez, era arauto de Seu Pai: Mt 4.17, 23; 11.1; e os doze discípulos, Paulo e Timóteo, arautos de Jesus: Mt 10.7, 27; Mc 16.15; Lc 24.47; At 10.42; Rm 10.8; 1 Co 1.23; 15.11; 2 Co 4.5; Gl 2.2; 1 Ts 2.9; 1 Tm 3.16; 2 Tm 4.2.
  • EVANGELIZOMAI

Strong define o termo grego como “anunciar as boas novas”; ou seja, pregar o Evangelho. A Igreja, principalmente na figura do pregador, tem a missão de anunciar ao mundo uma maravilhosa nova: Cristo veio ao mundo salvar pecadores. Isto é o Evangelho. Esta é a boa nova que Deus envia aos pecadores. De modo que o conteúdo da pregação deve ser a obra que Cristo realizou na Cruz do Calvário: 2.10; At 8.35; 17.18; Gl 1.16; Ef 3.8; Rm 1.16; 1 Co 15.1ss. Apesar da obviedade de tal constatação, dificilmente se poderá conhecer a fundo a obra e a pessoa de Jesus, ounvindo determinados pregadores – por mais barulhentos e emotivos que sejam!
  • MARTYREIN

Muitas pessoas desconhecem que o termo “mártir” é oriundo de um termo grego que significa “testemunhar”. Jesus convidou seus discípulos a seres suas testemunhas, Lc 24.48; At 1.8. Convite que foi aceito por eles, até as ultimas consequencias, At 2.32; 3.15; 5.32; 10.39; 13.31; 22.15; 23.11; 1 Jo 1.2; 4.14. Os discipulos tinham tanta convicção da verdade que anunciavam que deram testemunho dela até quando a morte era a pena contra sua fé. Como testemunharam sobre Cristo? Conversando, debatendo, expondo, escrevendo cartas e livros! Quantas testemunhas de Cristo temos visto em nossos púlpitos ultimamente? Receio que não muitos. E você? E eu? Temos nós sido testemunhas de Jesus quando subimos a tribuna da congregação?
  • DIDASKEIN

O Novo Testamento dá grande importância a este verbo, utilizando-o em 95 ocasiões. Qual seu significado? Ensinar! Este verbo foi a coluna vertebral do ministério de Jesus, que ensinava publicamente (Mt 9.35; 13.54 par.; Mc 6.2; 1.21), e no Templo de Salomão (Mc 12.35; Lc 21.37; Mt 26.55 par.; Mc 14.49; cf. Jo 18.20). E seu ensino, diferente dos fariseus, era “com autoridade” (Mt 7.28, 29); isto porque Ele anunciava exclusivamente a Palavra de Deus, e não ensinos ou tradições humanas.

Grande importância ao ensino também foi dada pelos apóstolos do Senhor, At 2.42; 5.28; Ef 4.11ss; Rm 12.6s.; 1 Pe 4.11.

Se você, querido leitor, por algum motivo se sentiu incluído na critica contra os ‘pregadores papagaios’, peço-lhe que humildemente medite nas implicações daquilo que a Bíblia tem como pregação, em contraste com o que tem sido sua prática habitual. Tal exercicio será para o seu proprio bem, e para o bem daqueles a quem você tem servido no Senhor.

E aos que em meio a luta já procuram a fidelidade ministerial, oro para que Deus lhes fortaleça em sua graça e amor, pois sem Ele, jamais conseguiríamos sequer avançar um único degrau na caminhada cristã.

A todos,

Paz e bem!

3 comentários :

  1. Excelente texto. Infelizmente as pessoas mais se preocupam com a aceitabilidade da mensagem, do que com o conteudo da mesma. Isso sem contar os atos estranhos a Biblia praticados por eles no pulpito.
    Recentemente em minha igreja, um "pregador" mais gritava que um papagaio e todo tempo ofendia aqueles que não gritavam "aleluia" e "glorias", falando uma série de asneiras contra esses. Ao ponto de afirmar que quem não grita, não é abençoado por Deus!

    ResponderExcluir
  2. marcelolemoseditor9 de setembro de 2009 13:42

    Certo, sem falar que as pessoas acabam saindo do culto achando que foi uma "benção!", sem serem capaz sequer de dizer onde e o sobre o que o pregador falou... Já vi coisas do 'arco da velha'!

    Paz!

    ResponderExcluir
  3. Paz Marcelo,

    Acerca do que você falou "Certo, sem falar que as pessoas acabam saindo do culto achando que foi uma “benção!”, sem serem capaz sequer de dizer onde e o sobre o que o pregador falou…", lembrei-me de um episódio na "minha" antiga igreja, neste fiquei de porteiro, enão deu para ouvir o sermão, então ao findar o culto perguntei ao obreiro que estava ao lado do pulpito em que passagem o diácono havia pregado. A resposta que recebi foi ". . . . ."

    Em Cristo,

    Ednaldo.

    ResponderExcluir

Comente e faça um blogueiro sorrir!

Reservamos o direito de não publicar comentários que violem a Lei ou contenham linguagem obscena.