O Sermão - Vaca Sagrada do Protestantismo?

O Sermão: 

Vaca Sagrada do Cristianismo?


Por Marcelo Lemos                                                                                                                         


Não creio em estudar homilética para se tornar um bom orador. Melhor dizendo, tornar-se um bom orador, ou um orador profissional, não é o objetivo principal de tal estudo. Não se deve imaginar que a oratória seja uma muleta na qual o pregador se apóia, nem um trunfo que utiliza para seduzir a congregação. Os gregos se intoxicavam de retórica, a Igreja de Cristo enche-se do Espírito Santo (Efésios 5.18).
Com isso, não pretendemos avalizar aquela opinião, segundo a qual, a homilética seja desnecessária ou mesmo diabólica. Em muitos círculos denominacionais foi preciso enfrentar inúmeras barreiras contra o preparo técnico do pregador. A objeção mais comum, filha de um falso sentimento de piedade, dizia ser tal preparo um empecilho ao agir livre e natural do Espírito Santo; não lhe sendo possível admitir um Espírito capaz de usar o intelecto humano.

Quer queríamos, quer não, essa barreira não está completamente superada. Tal fato pode ser mais facilmente constatado em meio as Igrejas mais dadas a manifestações carismáticas do Espírito. Mas não estão sozinhas em neste preconceito. Nos últimos anos, junto com aquilo que se pretende chamar de igreja emergente, e em alguns movimentos não denominacionais, o mesmo sentimento anti-homilética está bem presente.

Mesmo não sendo nossa intenção analisar estes movimentos citados por último, arriscaríamos defini-los como uma tentativa de restabelecer o cristianismo original, primitivo, conduzindo a Igreja de hoje aos mesmos padrões vigentes nas primeiras décadas da religião cristã. Em nome deste ideal, tais movimentos, que diferem bastante comparados uns aos outros, levantam suas bandeiras contra os ‘males’ do cristianismo atual: o denominacionalismo, a liturgia, o ministério pastoral, o sustento pastoral, o batismo, a Ceia, a hermenêutica, etc. E nesta cruzada em prol de uma religião cristã mais próxima dos dias apostólicos nem mesmo o sermão consegue sair ileso.

Precisamos destacar, uma vez mais, o fato de que estes movimentos diferem muito entre si, de modo que num determinado lugar uma igreja emergente pode aceitar um e outro elemento litúrgico, uma ou outra doutrina, enquanto que um segundo movimento reformista ou emergente não os aceitará. Estes detalhes factuais nos impediriam de jogá-los todos numa mesma salada, imaginando serem uma coisa só.

Além disso, não é nosso objetivo analisar os prós e contras de tais movimentos, antes, queremos voltar nossa atenção para as mais importantes objeções que alguns destes movimentos fazem contra a pregação cristã, o nosso sermão. Os argumentos aqui analisados foram retirados do livro Cristianismo Pagão, escrito por Frank A. Viola.

Logo na apresentação do livro alguém comenta que o mesmo “deveria ter sido escrito há 300 anos. Se isso tivesse acontecido, a direção da história cristã seria totalmente distinta daquela que tomou. Se cada ministro lesse este livro hoje, ele deixaria o ministério amanhã ou viveria uma vida de hipocrisia” (Gene Edwards).

Dentre as práticas protestantes analisadas e condenadas no livro de Viola está justamente aquele que tem sido um dos carros-chefe do nosso trabalho aqui no blog: o sermão! O autor nutre um conceito tão baixo sobre o sermão que afirma “apesar do fato do sermão não possuir nenhum mérito de fragmento bíblico que justifique sua existência, este continua sendo admirado e isento de crítica nos olhos da maioria dos cristãos modernos... Como pode um homem pregar um sermão sobre ‘ser fiel à Palavra de Deus’ se a prática do sermão não é bíblica?... Não há espaço no curral da Igreja para vacas sagradas como o sermão!.

Segundo Viola a prática do sermão não é Bíblica, mas pagã. E ele ‘prova’ isso demonstrando que as regras e padrões das quais se utiliza a homilética foram copiados dos oradores gregos e romanos. Comentando sobre Calvino, por exemplo, ele alfineta “Os Puritanos adotaram o estilo de pregar usado por Calvino. Qual era esse estilo? Era a exposição das Escrituras de forma sistemática. Um estilo adotado dos pais da Igreja, o qual chegou a ser bem popular durante a Renascença. Calvino era um especialista nessa área. Antes de sua conversão ele empregava este estilo comentando um autor pagão, Sêneca. Ao se converter passou a pregar sermões, ele aplicou o mesmo estilo analítico à Bíblia”.

O que há por trás do desprezo que esse autor nutre contra o sermão? Quais são os argumentos que usa para sustentar seu preconceito? Pretendemos analisar estas questões, não porque o livro de Frank A. Viola esteja tendo grande influência – até onde sabemos não está! -, mas sim, porque boa parte de seus argumentos é utilizada, ainda que inconscientemente, por outras pessoas, sobre as quais comentamos no início. Segundo ele, o sermão protestante é antibíblico porque as pregações encontradas na Bíblia apresentam as seguintes características:

  • Eram pregações esporádicas, enquanto que a pregação protestante é regular, com hora e dia marcado; etc.

    • Eram pregações proferidas em ocasiões especiais para tratar de problemas específicos;

    • Eram pregações extemporâneas e sem estrutura retórica;

    • Eram, na maioria dos casos, muito semelhantes a diálogos; ou seja, o orador era interrompido pela audiência.

    • E os sermões que temos hoje na Igreja Protestante? Nada mais são do que uma adaptação que se fez das regras retóricas criadas e estabelecidos por gregos e romanos; portanto, o sermão protestante, concluem, é uma prática antibíblica.

    Tanto os emergentes que pensam como Viola como os grupos carismáticos que citamos no início padecem do mesmo mal: a incapacidade de admitir ser possível um Espírito capaz de usar o intelecto humano. Melhor ainda, a incapacidade de admitir o fato de que o Espírito não somente utiliza o intelecto humano, como também utiliza a produção cultural deste intelecto.

    A própria composição das Escrituras, livro sob o qual estamos todos subjugados, é uma cabal prova deste fato. A Bíblia Sagrada não é um livro original se analisada do ponto de vista estilístico, mas sim, quando a olhamos a partir de sua fonte, sua origem e inspiração. Do ponto de vista artístico a Bíblia foi escrita com os recursos culturais disponíveis no seu tempo. Deus não inspirou – no sentido carismático – a cultura por trás da composição da Bíblia. A inspiração estava na Palavra confiada aos seus servos.

    Ademais, a própria Bíblia reconhece que tal inspiração não era mecânica, entendida como algum tipo de psicografia. De fato, os autores inspirados fizeram uso de pesquisas, recursos lingüísticos e retóricos que eram comuns e acessíveis em seu tempo. É instrutivo observar como Lucas explica sua metodologia de trabalho:

    “Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmos que os presenciaram desde o princípio, e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelente Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio; para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado!” – Evangelho de Lucas 1.1-4.

    S. Lucas não foi tomado por um “espírito” e começou a escrever seu evangelho como um robô. Esse era o método de Chico Xavier, não dos escritores bíblicos. Na passagem supra citada, Lucas afirma ter utilizado os recursos científicos e literários de seu tempo. Tendo pesquisado os fatos sobre a vida de Jesus dedicou-se a escrever um dos livros mais originais, quando ao estilo literário, dentre os Sinóticos. Isso mesmo! Como ressalta o teólogo François Bovon “Lucas é o mais grego dos autores do Novo Testamento. Maneja com certa elegância a língua comum falada então; preocupa-se em ser compreendido pelos ouvintes pouco afeitos às tradições judaicas”. E Lucas foi tão bem sucedido neste esforço que o mesmo teólogo conclui: “o leitor ocidental moderno sente-se logo a vontade em sua companhia!” – (Evangelho Sinótico e Atos dos Apóstolos; diversos autores; Edições Paulinas).

    Em praticamente todas as páginas do Livro Inspirado podemos encontrar indícios de que seus autores humanos utilizaram sobejamente os recursos culturais que tinham em mãos, sendo que cada um deles os utilizava forma diferente, de acordo com suas capacidades pessoais. Ora, se a inspiração fosse mecânica (psicografia) certamente teríamos um padrão constante!

    Por exemplo, segundo dados do teólogo E. Cothenet, o vocabulário utilizado por S. João é “relativamente pobre”: 1.011 palavras. Os demais evangelistas possuem vocabulários mais ricos: Mateus utiliza 1.961 palavras; Marcos 1.345 e Lucas 2.055. Sendo que, na análise do mesmo teólogo, em comparação com Lucas o vocabulário de S. João é “menos literário” (Os Escritos de S. João; vários autores, Edições Paulinas).



    Seria comparação interessante colocar a Bíblia e o Livro de Mórmon, por exemplo, lado a lado, comparativamente. Uma das coisas que mais me chamou atenção ao ler o livro (supostamente) traduzido por Joseph Smith é a sua linguagem e estilo sempre constante. Em textos supostamente escritos por escritores diversos, em épocas diversas, em contextos diversos, encontramos expressões e construções idênticas, absurdamente fastidiosas, um tédio só. Na Bíblia, porém, apesar do esforço que se faz, na tradução, para dar um padrão lingüístico a todo o texto, conseguimos com total facilidade diferenciarmos a linguagem e o estilo de cada autor.


    Ainda falando sobre o trabalho de S. João vale citar um dado interessantíssimo. Os especialistas concordam que João, de modo geral, escreve o grego que forma correta; todavia é possível perceber algumas incorreções. Num dos livros mais famosos do cristianismo, História Eclesiástica (de Eusébio), encontramos a seguinte análise feita por Dioniso de Alexandria:
    “Estes trabalhos (Ev. de João e I João) não somente não pecam contra a língua grega, mas são escritos de maneira escorreita quando às expressões, deduções, composição, e dificilmente aí se encontra termo bárbaro ou selecismo ou idiotismo... Quando ao autor do Apocalipse... observo que ele emprega idiotismos bárbaros e, por vezes, comete até mesmo solecismos!”.

    Embora inspirado pelo Espírito Santo, o trabalho estilístico de S. João dependia de suas virtudes e defeitos pessoais. Se o leitor tiver acesso ao texto grego do Novo Testamento (recomendo o Textus Receptus) poderá observar no evangelista aquilo que os gramáticos chamam de parataxe; que no caso de João consiste em seu costume de “enfileirar proposições a custa de kai (Cothenet), além de constantemente se valer da conjunção hina ao introduzir alguns tipos de proposição.

    Além de podermos perfeitamente distinguir entre o estilo e as capacidades individuais dos autores do Novo Testamento, também podemos identificar o uso que eles faziam dos processos literários de seu tempo.

    Não custa lembrar que uma das objeções de Frank A. Viola contra o moderno sermão protestante é que o mesmo não é “extemporâneas e sem estrutura retórica”. Ou seja, ele afirma que ao pregarmos um sermão estamos sendo antibiblicos, pois os pregadores do Novo Testamento não se valiam de nenhum tipo de estrutura.

    Tendo esta objeção em mente leia o que o já citado Cothenet nos diz sobre o processo literário de São João: “Tais composições inspiram-se em técnicas usuais na antiguidade e especialmente nas pregações sinagogais!”; pg. 33.

    Tal informação é de grande valor, uma vez que demonstra que nos dias apostólicos existiam sim regras de oratória, ainda que muito diferentes das que usamos na atualidade. Além disso, descobrimos que João, mesmo estando sob a inspiração do Espírito Santo, fez uso destas técnicas na redação do seu trabalho. Talvez alguém objete dizendo que João, ao escrever seu evangelho e suas cartas, era um escritor, não um pregador. Não obstante, tal objeção é irrelevante por dois motivos: ao escrever estes livros que compõem o Novo Testamento João está acima de qualquer pregador de seu tempo, ou de qualquer outro tempo. Alem disso, seus livros eram lidos em todas as Igrejas, conforme recomendação apostólica.

    Os fatos aqui assinalados, apesar de não muito extensos, nos permitem observar que nenhuma das objeções simplistas e sensacionalistas contra o uso da homilética na pregação consegue lograr êxito real. Impressionam apenas na medida que desconhecemos o verdadeiro peso que elas possuem quando analisadas a luz do Novo Testamento e da História.

    Todavia, não é nossa intenção simplesmente refutar as objeções de Viola e de qualquer outra pessoa que nutra algum temor em relação a homilética. O fato é que o uso equivocado desta ferramenta pode vir a ser prejudicial, por isso, devemos sempre nos manter alerta e em sintonia com a Palavra de Cristo.

    Como afirmei no início, não creio em estudar homilética para se tornar um bom orador apenas. Quando o objetivo passa a ser a oratória em si mesma acaba-se por torná-la mais importante do que a Palavra de Deus. Quando comecei estudar teologia alguém me alertou sobre o perigo da “Síndrome do Seminarista”. Quando acometida por esta moléstia a pessoa passa a enxergar a Igreja com as lentes da crítica, imaginando ser o único capaz de dar um ‘jeito’ nas coisas. Infelizmente, no início, eu fui infectado por este vírus. No meu caso os maiores sintomas manifestavam-se durante a pregação dos outros.

    Tendo decorado certo modelo de homilia eu viva analisando a pregação das pessoas a luz de tal modelo; ser fiel ao meu padrão de oratória era fundamental, ainda que eu mesmo não fosse capaz de cumpri-lo a risca (ainda não sou!). Afortunadamente o Espírito Santo me fez ver que eu estava enfatizando a coisa errada. A autoridade da Palavra está infinitamente acima da exatidão retórica. Em outras palavras, comecei a descobrir que estando o pregador fiel as Escrituras, os seus deslizes homiléticos são menos relevantes.

    Vindo de alguém que ama ensinar a arte da pregação, o parágrafo anterior pode parecer incoerente, todavia penso exatamente assim. Com este princípio em mente fico apto a julgar primeiro a mensagem do pregador, para depois, estar livre para julgar o pregador como tal. Hoje não tenho nenhuma dificuldade em ouvir a voz de Deus quando o irmão ‘Zé da Quitanda’ está pregando com aquela sua incomoda mania de redundância: “Irmãos, quero que vocês digam –me a mim: qual deve ter sido o sentimento dos discípulos quando viram olhando Jesus Cristo subindo para cima e assentando-se a destra de Deus, na sua mão direita?”.

    Minha opinião é que vale mais um pregador sem homilética, mas Bíblico, do que um pregador mestre em oratória que não passa de animador de auditório. Assim, penso que mais urgente que apenas ensinar homilética temos uma necessidade inadiável de formularmos uma teologia da pregação. Sem um conceito apropriado do que é pregação bíblica, tanto a falta quando o domínio da arte oratória será prejudicial.

    Com isso não pretendo minimizar o valor da homilética para o pregador, apenas colocá-la em seu devido lugar. Do mesmo modo que sou contra aqueles que a pintam como sendo algo diabólico, desnecessário ou pagão, sou contra os que fazem da oratória o seu pé de coelho, ou, sua vaca sagrada.

    Paz e bem.

    EDITOR-BLOG

    4 comentários :

    1. concordo muito com o que vc analizou Marcleo! realmente vale mais um pregador sem homilética, mas Bíblico, do que um pregador mestre em oratória que não passa de animador de auditório.
      Abraços

      (PS visite meu blog armandomarcos.blogspot.com ! tem vários artigos seus lá! gosto muito de seu blog. quando puder dá uma visita lá!)

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    2. Marcelo, concordo em gênero numero e grau com suas ponderações. Li o texto de Viola alguns anos atrás e também escrevi uma defesa do sermão.
      Segundo Viola, "pelo fato de ser uma estrada de uma só mão, o sermão embota a curiosidade e produz passividade. O sermão debilita a igreja no que toca ao seu funcionamento. O sermão sufoca o mútuo ministério. Abafa a participação aberta".
      Em oposição total ao que afirma Viola, percebemos nas Escrituras que a pregação da Palavra é o meio supremo pelo qual Deus edifica sua igreja. A igreja de Cristo origina-se, vive e é perpetuada pela Palavra de Deus (Rm 10.17). É por meio da mensagem anunciada, ouvida e crida que os homens são salvos da perdição, da escravidão do pecado e da morte (Rm 10.10,17; Jo 8.34-36). “A Palavra de Deus é viva e eficaz” (Hb 4.12). O evangelho é o “poder para a salvação” (Rm 1.1). O pastor John MacArthur afirmou: “Nenhuma igreja pode permanecer saudável por muito tempo se o seu púlpito não se mostrar forte. E púlpito algum é realmente forte se a Bíblia não for o alicerce de sua pregação”. A verdadeira pregação encoraja a igreja a crescer espiritualmente.
      Um grande abraço!

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    3. marcelolemoseditor28 de julho de 2009 09:37

      Olá, irmão Davi Lago! Graça e Paz.

      Olha, apesar do livro de Viola me parecer não ter grande influencia sobre as pessoas, o fato é que os pressupostos por trás de suas objeções são a base da maior parte de 'desaporvações' da homilética. Por isso, o meu interesse em refutá-lo. E por falar em refutação, fiquei curioso em conhecer, na integra, o texto escrito pelo irmão - que sabe agente não poderia publica-lo aqui no blog. Todo esforço em prol da pregação bíblica é bem vinda.

      Paz e bem!

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    4. Muito bom sua linha de raciocínio, tanto que o seu texto me fez ficar atento a cada comentario. O mais mais entereçante para eu foi de que "Com isso não pretendo minimizar o valor da homilética para o pregador, apenas colocá-la em seu devido lugar." Portanto, nota-se o quanto é importante ter pensador crítico.

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