Você Escreve Seus Sermões? (Parte I)

Parte I

Marcelo Lemos“Mas eu vos digo que de toda a palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no dia do juízo” Mateus 12.36.


Às vezes escutamos afirmações estranhas. E mais estranhas são, quando proferidas durante a fala inflamada de um pregador. Admito que fazer este tipo de julgamento é uma faca de dois gumes, especialmente quando nós mesmos também costumamos pregar.


Todos cometermos deslizes, sem exceção. Já fiz afirmações em cima do púlpito que, passado algum tempo, me arrependi. Lembro-me de quando da morte súbita de uma pessoa muito querida na Igreja, e minha amiga pessoal, preguei um sermão inflamado sobre a esperança do cristão. Modéstia à parte, foi um sermão muito bom. Contudo, em determinado momento, fiz afirmações sobre a consciência da alma após morte, das quais me arrependo hoje, tendo em vista o fato de que a Bíblia apresenta como consolo aos que ficam, apenas e somente, a esperança da ressurreição. Se é que os mortos estão conscientes, tal fato, se é  que é fato, jamais se apresenta nas Escrituras como consolo – só a ressurreição o é!


Também sei de pessoas chegadas a mim, as quais admiro pela biblicidade e sobriedade, das quais posso testemunhar um ou outro deslize. São coisas que simplesmente acontecem, dada a nossa limitação e fragilidade. São experiências assim, somadas a uma convicção inabalável na primazia da pregação, que me convencem de que o pregador deveria escrever todos os seus sermões, a fim de poder medir o valor de tudo o que diz, e de estar apto a um auto-exame contínuo.


Não pretendo com isso condenar o pregador que não escreve seus sermões, e nem exaltar aquele que chega ao extremo de lê-los. Trata-se de uma questão de atitude. Um pregador compromissado com a verdade, e não com os possíveis cachês da ‘profissão’, há de cuidar da precisão das suas palavras, com ou sem manuscrito. Um manuscrito pode ser tão ruim quando uma fala improvisada; assim como um simples esboço pode conter mais alimento que um livreto sobre os ‘crente águia e o crente galinha’. A diferença está na atitude do pregador.


O mesmo pensamento vale para a estrutura a pregação. Qual delas é preferível? Sem dúvida alguma a pregação expositiva se sobrepõe sobre qualquer outra. Todavia, os demais tipos de sermões são errados? Claro que não. Gosto de usar o exemplo das Teologias Sistemáticas: caso a pregação temática seja errada por si só, então devemos jogar fora Hodge, Strong, Pink, Claudionor de Andrade, etc! A pregação expositiva é preferível por nos dar maior segurança de sua exatidão bíblica; porém, uma pregação temática pode vir a ser tão fiel quando ela, dependendo da atitude do pregador.


Por isso, não interpretem erroneamente minha preferência por sermões escritos. Não pretendo estabelecer regras, nem sacramentar este ou aquele método.  Pessoalmente faço uso constante de esboços, devido à praticidade, e já falei algumas vezes de improviso (infelizmente) – tudo depende da situação. Pouco a pouco, tenho assumido uma postura mais rígida, obrigando-me a escrever as mensagens, e também a lê-las no púlpito.


Ler o sermão não causará estranheza? Em se tratando de uma igreja pentecostal a resposta, pelo que tenho visto, é quase sempre um ‘sim’. Todavia, nada que impeça o pregador de fazê-lo. Evidentemente que uma pessoa recitando um texto não tem nada de agradável, porém, um pregador não recita – ele prega! A pregação implica fervor, mesmo quando se está lendo. Eu direi até que é impossível ler um sermão: o pregador apenas se guia pelas linhas diante dos seus olhos. Como fazer isso? É o que tento descobrir a cada nova pregação.


Leve a sério quando digo que o pregador, mesmo com um sermão escrito, deve apenas se guiar pelas linhas a sua frente. Algo que tenho como firme convicção é que o pregador não deve perder o contato visual com os seus ouvintes. Por isso, se o pregador escreve seu sermão ele deve treiná-lo várias vezes antes de pregá-lo. Isso fará com que a mensagem esteja completamente arraigada em seu coração. Desse modo, o manuscrito a sua frente será um guia, e uma salva guarda para o caso de esquecer algum detalhe, ilustração, referencia bíblica, citação ou detalhe técnico.


Para servir de bom guia é indispensável que o manuscrito, ou mesmo um simples esboço, contenha dicas visuais para o pregador. Que dicas visuais? Por exemplo, cada divisão principal deve estar em destaque; uma boa dica é escrevê-las em MAIÚSCULAS e em NEGRITO. Além disso, que cada uma delas esteja enumerada por números romanos (I, II, III, IV).  Se o pregador não quiser usar tal numeração, poderá simplesmente centralizar o enunciado da divisão principal, pois isso também lhe dará o destaque necessário. Este método é o utilizado por David Wilkerson, como podem conferir no site do mesmo.


Algumas pessoas definitivamente não se arriscam a escrever. Acredito que boa parte desta reação deva-se ao medo de escrever. Parece estar arraigado no imaginário popular que a escrita seja um dom, e o texto fruto de algum tipo de inspiração maior. Não é improvável que algumas pessoas seja, de fato, dotadas de alguma habilidade para esta tarefa, porém, o certo é que a escrita é um trabalho como qualquer outro, e como tal, trata-se de uma habilidade que pode ser adquirida, perdida, aperfeiçoada...


Nos depoimentos que se seguem podemos ver que até os escritores consagrados encaram a escrita como um desafio, uma meta a ser alcançada.


Está é uma declaração de amor; amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa do superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la – como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope – Clarice Lispector.


Está é a terceira vez ou quarta que ponho o papel na máquina e começo a escrever; mas sinto que as frases pesam ou soam falso, e as palavras dizem de mais ou dizem de menos e a escita sai desentoada com o sentimento – Rubem Braga.


Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.


Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo como maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginalia, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.


Que isso, rapaz. Entretanto, ai está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Conclui que não há assunto, que dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não saber ir além disso, não corta na verdade a barrida da vida, não resolve os intestinos da vida, ficam em sua cadeira, assuntando, assuntando...


Então hoje não têm crônica” – Carlos Drummond de Andrade.


A maioria dos escritores – os poetas principalmente – gostam de afirmar que eles escrevem num estado de frenesi – numa intuição de êxtase – e certamente ‘tremeriam’ se deixassem os leitores darem uma olhada atrás dos bastidores nas cruezas vacilantes do pensamento em elaboração, nos verdadeiros propósitos ‘pescados’ num ultimo minuto, nas inúmeras aproximações de uma idéia que não veio a tona por falta de uma visão mais profunda; nas fantasias amadurecidas e prontas que foram desprezadas; nas seleções e rejeições feitas com precaução; nas doloridas rasuras e interpolações – em resumo, na evoluções e reformulações; nos lemes que guiam as mudanças de percepção, os tijolos da construção, as penas do galo, a tinta vermelha, e os remendos negros que, em 99% dos casos, constituem as bases do trabalho literário” – Edgar Allan Poe.


Você fica temeroso diante de uma folha em branco? Bem-vindo ao clube, você não está sozinho!


Diante do medo nós temos duas reações possíveis: abraçar a derrota prévia, sem o sabor de ir a luta; ou partirmos em busca de caminhos que nos permitam atingir o nosso alvo, o nosso texto.


Oro para que você fique com a segunda opção. Certamente a Igreja de Cristo poderá ganhar muito mais através do seu ministério. Este é o apelo que faço a todos os obreiros do Senhor: todos nós deveríamos investir na qualidade de nosso trabalho cristão. Imaginem quanta produção teológica não poderia vir à tona, a partir do simples compromisso de escrevermos nossos sermões?


Reflita sobre isto. Nos próximos dias retomaremos este assunto. 

Paz e bem.

2 comentários :

  1. Ótimo material o download disponível.

    Quando tenho a oportunidade de pregar, procurar fazer algumas anotações para utilizar como guia durante a pregação, vi que posso melhora-las montando um esboço.

    Vejo que existe um certo preconceito, pelo menos em minha igreja, quanto ao pregado que se utiliza de roteiros, pois dizem não ser necessários, pois é o Espírito Santo que dá a pregação, podendo até nem se preparar para tal, apenas abrir a bíblia e pregar no versículo verificado...

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  2. marcelolemoseditor28 de julho de 2009 09:41

    Marcio, o preconceito que você cita acaba apenas gerando a crise que temos visto na pregação atual. Crise de identidade, de conteudo, de relevancia... Por isso, aqueles que tem tido uma consciencia cristã acerca do assunto não devem se deixar intimidar pelas dificuldades, e lutar por um pulpito bíblico e cristocentrico.

    Paz e bem!

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