Assembleiano, Calvinista e Reformado?

Assembleiano, Calvinista e

Reformado?

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Marcelo Lemos



- Você tem se sentido bem, Marcelinho?

- Sim, muito bem, obrigado.

- Irmã Helena; aconselho que a senhora leve seu filho a um médico. Enquanto orávamos Deus me mostrou uma mancha no pulmão de seu filho.

- Tudo bem, farei isso.
Era o ano de 1993. O mês, pelo que me lembro, era o de Julho. E a minha reação as palavras acima foi a descrença. Eu passava por uma fase de apostasia, simplesmente não ia mais a Igreja, nem me interessava muito pelas coisas espirituais. Era apenas um garoto que quando ia a Igreja, o fazia por mero costume, e às vezes, por imposição dos pais.

Por algum motivo minha mãe também não deu muito credito ao aviso, talvez por ter muitas preocupações em sua mente, ou simplesmente porque eu estava perfeitamente bem de saúde, muito obrigado.

Mas, eu não estava bem de saúde, como iria descobrir alguns meses depois, caminhando pelo centro de São Bernardo do Campo. Ao passar mal no centro da cidade, em frente a Biblioteca Monteiro Lobato, descobri que havia algo de errado comigo. E era o pulmão, conforme exames realizados pelo bom convênio que meu pai, funcionário publico, mantinha para nós.

Era o pulmão, e era uma mancha. Não me lembro exatamente o nome da enfermidade, apenas me lembro de que os médicos diziam que eu havia sofrido uma espécie de ‘derrame’ no pulmão, ou coisa do tipo. Seja lá qual for a doença, o diagnóstico é que eu precisaria ‘drenar’ a sujeita que estava lá dentro formando a tal mancha.

Felizmente não foi preciso nenhuma intervenção cirúrgica, pois Deus concedeu que apenas o tratamento medicamentoso, que durou seis meses, solucionasse o problema.
******


- Meus irmãos; tem uma jovem aqui, me revela o Espírito Santo, que você cortou as pontas de seus cabelos.

Silêncio geral na Igreja.

- Saiba você, minha jovem, que isso não é algo que uma santa de Deus deva fazer.

Certo silencio, entrecortado por um ‘glória’ aqui e um ‘aleluia’ acolá...

- Olha, o Espírito me diz que caso você não se humilhe agora perante o povo de Deus, todos os cabelos da sua cabeça irão cair!

Medo. Dava quase para sentir o cheiro dele na Igreja. Diante da ameaça um pequeno grupo de moças se levanta e vai à frente da congregação confessar os seus ‘pecado’... mesmo que o Espírito Santo tenha ‘revelado’ apenas uma jovem...
*****


Presenciei os dois casos acima, bem como muitos outros. Com base no primeiro, posso afirmar que os dons espirituais existem hoje? Não. Com base no segundo caso, posso afirmar que os dons espirituais demonstrados hoje são fraudes? Não. Onde podemos encontrar respostas para esta questão tão debatida em nosso tempo? Apenas nas Escrituras Sagradas.

É com certo pesar que vejo os dois lados do debate apoiando-se em evidencialismo. Meus queridos, ouçam esta advertência: se o evidencialismo fosse capaz de nos conduzir a verdade, o homem seria salvo pela ciência, ou então, convencido do ateísmo por ela. Caso o evidencialismo nos permitisse chegar, de fato, ao conhecimento da verdade e do real, os apologistas cristãos que dele se utiliza não gastariam anos e mais anos tentando convencer os ímpios daquilo que é óbvio!

Não importa se as suas experiências pessoais, os as que você testemunhou, indicam a veracidade de alguma coisa, ou, ao contrário, indicam sua falsidade. As suas experiências não valem nada quando o assunto é definir a verdade. Se você é pentecostal, não tente usar sua experiência para provar sua doutrina, use a doutrina, fundamentada nas Escrituras, para validar a experiência. Se você é um cessacionista, não se atreva a selecionar experiências nitidamente fraudulentas para provar seu ponto de vista, antes, use sua doutrina, fundamentadas nas Escrituras, para invalidar tal experiência, e as demais, se for o caso de ser isto possível.

Não é incomum que eu receba comentários jocosos do tipo: “Espere um minutinho ai! Como pode um assembleiano se dizer reformado?”. “E qual é o problema nisso?” – eu pergunto, apesar de já saber a resposta. “O problema é que o pentecostalismo não vê as Escrituras como única regra de fé e prática!” – me respondem. “Quem disse isso?”. “Ora, é óbvio: se vocês acham que o Espírito fala ao homem não somente por meio das Escrituras, logo, as Escrituras não são a autoridade suprema sobre vocês!”.

A objeção acima é forte e, precisamos admitir, que muitos pentecostais a merecem. Porém, novamente devemos reafirmar o nosso desprezo pelas experiências quando consideradas como critério de verdade. Se alguns pentecostais, ou mesmo a maioria deles, agem como se a Bíblia não fosse a autoridade suprema da Igreja, tal fato, por si só, não serviria para provar que os dons espirituais não estejam disponíveis para a Igreja hoje. Serviria, no máximo, para provar que os pentecostais utilizam-se dos dons de forma equivocada, a semelhança do que fazia a Igreja de Corinto.

Todavia, apesar da objeção acima ser forte, ela peca por contradizer a própria teologia reformada. E faz isso em duas vertentes. Primeiro, contradiz a pneumatologia reformada. Segundo, contradiz o próprio conceito de autoridade suprema das Escrituras.

A pneumatologia reformada nos fala participação ativa e atual do Espírito Santo no ‘ordo salutus’. Sendo que o homem é completamente incapaz de sequer compreender a verdade do Evangelho, obrigatoriamente o Espírito Santo precisa operar uma Chamada Eficaz no coração dos eleitos. De modo que é correto afirmar que sem essa revelação pessoal que o Espírito concede ao coração do eleito, não haveria salvação.

Portanto, sola scriptura, refere-se ao fato de que a Bíblia é a autoridade suprema na vida da Igreja, mas não diz que Deus não se revele ao homem de um modo pessoal. Edwin H. Palmer, teólogo reformado, nos diz:
“A Igreja Reformada foi a que deu grande impulso ao estudo do Espírito. Os reformadores, em oposição as teorias de Roma, sustentaram  que não era a Igreja o necessário para se poder interpretar corretamente a Bíblia, mas o Espírito Santo, o qual ilumina a mente do homem” – O Espírito Santo; Edições Felire.

É verdade que tal revelação pessoal ao coração do homem não se dá a parte das Escrituras, antes anda de mãos dadas a ela, contudo, também é fato que a mesma se dá no coração do homem, sendo, portanto, uma “nova” revelação no tempo.

Num excelente artigo intitulado “A Doutrina Reformada da Autoridade Suprema das Escrituras”, o teólogo reformado Paulo Anglada, nos diz:
Isto não significa que as Escrituras sejam o único instrumento de revelação divina. Os atributos de Deus se revelam por meio da criação: a revelação natural (cf. Sl 19:1-4 e Rm 1:18-20). Uma versão da sua lei moral foi registrada em nosso coração: a consciência (cf. Rm 2:14-15), "uma espiã de Deus em nosso peito," "uma embaixadora de Deus em nossa alma," como os puritanos costumavam chamá-la. A própria pessoa de Deus, o ser de Deus, revela-se de modo especialíssimo no Verbo encarnado, a segunda pessoa da Trindade (cf. Jo 14.19; Cl 1.15 e 3.9).

Mas, visto que Cristo nos fala agora pelo seu Espírito por meio das Escrituras, e que as revelações da criação e da consciência não são nem perfeitas e nem suficientes por causa da queda, que corrompeu tanto uma como outra, a palavra final, suficiente e autoritativa de Deus para esta dispensação são as Escrituras Sagradas.

Deus se comunica com o homem por meio da natureza. Deus se comunica com o homem por meio da consciência. Deus se comunica com o homem por meio da chamada eficaz dirigida ao coração do eleito. Como reformados confessamos todas estas doutrinas, e nem por isso, afirmamos que qualquer uma delas tire das Escrituras o seu status de autoridade suprema sobre a Igreja, pois é nela que reside a “palavra final, suficiente e autoritariva de Deus”.

Acima escrevi a forma como respondo a pergunta sobre ser reformado e assembleiano.

E termino deixando um alerta para os dois lados da trincheira. Quando a fé desvaloriza a atuação pessoal e presente do Espírito Santo nos dos concedidos a Igreja, ela corre o risco de se convertem em racionalismo, ou ainda, em algum tipo de deísmo prático e piedoso. Por outro lado, quando a fé se apega as emoções e as experiências, o risco é que se converta em mero misticismo antibíblico e irracional.

Seja qual for a sua atual convicção sobre o debate, o que importa é jamais fazer da experiência, um meio confiável para se obter a verdade.

Paz e bem.

13 comentários :

  1. Marcelinho,

    Bom você tocar nisso. Ainda não me decidi o que é mais fácil, explicar para um pentecostal que sou calvinista ou para um calvinista que sou pentecostal. Um e outro me olham enviasado...

    Em Cristo,

    Clóvis

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  2. Paz Marcelo,

    Como diz um obreiro da nossa igreja, "é desse jeito!".

    Ednaldo.

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  3. marcelolemoseditor5 de agosto de 2009 09:38

    Ednadlo, rsrsrs! "É desse jeito!" (2)

    Valeu.

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  4. marcelolemoseditor5 de agosto de 2009 09:40

    Entre a cruz e a espada... esta seria uma boa descrição para o que sentimos, não é mesmo?

    Paz e bem

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  5. Marcelo,

    Gostei muito do texto. Altamente reflexivo, e muito bem trabalhado em suas "espinhas".
    Sou Calvinista, Reformado e pastor Auxiliar de uma igreja Assembléia de Deus.

    Grande abraço,

    Paz e bem!

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  6. É! Estou na mesma situação do pessoal acima, mas com algumas modificações, ou seja: Vivo a atualidade dos dons, fui ministro Assembleiano por 14 anos, presido atualmente uma igreja congregacional, sou calvinista, penso reformadamente, e, ainda por cima sou preterista. A coisa tá feia pro meu lado companheiro.
    Após ler o postado supra devo parabenizá-lo.

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  7. é meu irmão José Teixeira, vc realmente esta bem diversificado. Mas é um bom sinal, pelo menos fica claro que suas decisões doutrinarias advem daquilo que vc individualemente conclui.

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  8. Sem duvida a Bíblia Sagrada é a autoridade suprema para as nossas vidas e acredito que para sermos considerados evangelicos devemos ter isto em mente.

    Mas eu vejo certas coisas que fazem com que muitos reformados calvinistas caiam em contradição, pois, muitos deles tem por base de fé a pratica as "Institutas da Religião Cristã" de João Calvino e acham que estas não podem ser questionadas pois sao verdadeiramente a unica interpretação Bíblica correta.
    Não vejo dessa forma. Acredito ser a Bíblia autoridade maxima para nossas vidas, e acredito de uma maneira biblica na atuação do Espirito Santo na igreja para os dias de hoje.

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  9. Irmão André...se algum calvista tem por base de fé e pratica as institutas ai ele caiu memso em contradição. Se vc tivesse lido as Institutas ( é obvio que nunca leu ) notaria que qualquer Calvinista teria a Bíblia como autoridade maxima de sua vida e pensamento... E mais, a maioria dos calvinistas que adotam a Confissão de westminster te diria que a bíblia é a unica regra de fé e pratica...E mais, os presbiterianos discordam em muitas coisas de Calvino. Por exemplo Calvino era contra o 'rebatismo' de catolicos, e a IPB não concorda com isso.
    Um abraço

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  10. André,

    Sinceramente, ainda não encontrei um calvinista que tenha as Institutas como regra de fé e prática.

    Deve ser porque conheço pouca gente.

    Em Cristo,

    Clóvis
    Editor do Cinco Solas

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  11. Exposição maravilhosa sobre o tema.
    Saudações de Paz.

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  12. Exposição maravilhosa sobre o tema.
    Saudações de Paz

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  13. Texto extremamente edificante, mais o que faltou foi usar a Regra de fé e confissão da Igreja Assembléia e não de um "MEMBRO" da mesma. De fato existem tambem membros de Igrejas Reformadas que são arminianos ou que dizem que "falam em Linguas" etc. Se um crente é salvo na assembléia e futuramente abraçar a teologia reformada, ele pode continuar na Igreja? Paz!

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