Pregação Expositiva - Parte III

Pregação Expositiva

Parte III

Por Marcelo Lemos

A pregação expositiva é um manancial inesgotável para temas e sermões. O artigo anterior introduziu essa tese e, neste, estaremos dando prosseguimento em sua demonstração prática. Na simulação matemática que realizamos anteriormente, descobrimos que pregando três vezes na semana, você provavelmente precisará de 146 temas neste ano de 2009. Onde consegui-los de forma bíblica, variada e relevante para a sua congregação?
A nossa resposta é que a melhor solução seria pregar a Bíblia de maneira expositiva e seqüencial.

Na conclusão do artigo anterior, nós pedimos que você dividisse o Livro de Gênesis em Capítulos e Pericópes, a fim de ter uma noção de quantos temas ele pode nos proporcionar para este ano. Neste artigo, buscaremos demonstrar isso da forma mais prática possível.

Antes, porém, gostaríamos de dar alguns conselhos sobre como descobrir as divisões naturais no texto Bíblico. Uma “pericópe” é uma unidade completa em um texto bíblico. Cada unidade do texto bíblico possui o seu próprio objetivo, o seu próprio assunto e tema; que podemos definir, teologicamente, como sendo o “telos” da passagem. Por exemplo, todo o Capítulo 1 de Gênesis possui um mesmo tema; logo, temos uma pericópe; uma unidade do texto bíblico.

Isso não significa que Gênesis 1 possa ser desmembrado do restante do contexto do Livro, do Testamento e do Evangelho; mas sim, que temos nesta pericópe um tema, um assunto central que o autor tinha em mente ao registrar o evento. Nas passagens narrativas, por exemplo, esta percepção da pericópe e do telos é fundamental para a hermenêutica e a pregação. Ora, que interesse a congregação poderia ter pelos inúmeros detalhes da vitória de David contra os amalequitas? Mas, se além de falar de tais detalhes – que sejam relevantes – você lhes diz qual o tema da passagem, você estará lhes revelando o “telos” para da mesma, ou seja, a verdade universal que Deus inspirou por meio daquela passagem. A pericópe facilita a hermenêutica; o telos favorece a pregação.

Deve ser conhecido de todo que as divisões em capítulos da Bíblia não são originais; trata-se de um recurso adicionado posteriormente a fim de facilitar a leitura e a busca dos textos bíblicos. Também deve ser de conhecimento geral que na maioria dos casos, estas divisões foram feitas de forma completamente arbitrária e, conseqüentemente, errônea. Tudo isso pode causar problemas para os leitores menos avisados, e para o exegeta que trabalha nas “coxas”.

Se a descoberta das pericópes de um livro bíblico lhe parece demasiadamente complicada - como realmente pode ser algumas vezes - lembre-se de que temos a nossa disposição diversas ferramentas muito úteis. Defendemos a idéia de que um exegeta ou pregador jamais deve consultar comentários bíblicos previamente; porém, nada impede que ele possa consultar aqueles famosos – e ignorados! – sumários que acompanham cada boa introdução aos livros Bíblicos.

Veja uma imagem do sumário da King James Version, edição com comentários:

imagem1

Observe que o sumário é de grande auxilio na tarefa de se descobrir as divisões temáticas mais naturais para o texto; ou seja, suas pericópes.

Uma prática muito interessante é combinar vários destes sumários, através de atenta comparação; reescrevendo-os com suas próprias palavras. Evidentemente que nada disso terá valor algum se você nunca tiver lido o texto bíblico na integra; afinal, você não pode pregar em cima de sumários, não é mesmo?

imagem1

imagem2

Tal comparação é importante, pois os sumários são a percepção de quem os escreve; logo, diferentes sumários nos proporcionam diferentes ângulos de um mesmo livro bíblico.

Tentaremos demonstrar estas coisas em formato de “tutorial”, com o propósito de ajudar o leitor a ter uma compreensão melhor da utilidade da pregação expositiva para a seleção de temas, e dos meios empregados para descobri-los da forma mais natural possível. Para tanto, continuaremos a tomar o Livro de Gênesis como nossa base.

Mesmo que você não disponha de nenhum sumário completo do Livro de Gênesis; ainda assim, poderá ter uma noção da quantidade de temas que ele pode lhe proporcionar. O meio mais óbvio para isso é a simples contagem de quantos capítulos tem o Livro: 50 capítulos. Na hipótese de você escrever um sermão para cada capítulo, você terá sermões para todos os domingos de 2009, pois, em tese, você precisaria de apenas 48 sermões para cobrir todos os domingos do ano. Temos sobrando, então, 2 sermões para 2010!

Apesar dos números já serem convincentes, pregar todo o Livro de Gênesis simplesmente seguindo a divisão em capítulos, pode não ser muito prático ou atraente para a congregação. E aqui, entra o valor de descobrirmos a pericópes do texto e do uso [preferencialmente combinado] de sumários do Livro.

Além disso, você precisa reescrever estes sumários, a fim de torná-los “pregáveis”. Infelizmente, nem todos os pregadores se dão conta de que os seus “temas” não são “pregáveis”! Quando falamos, no parágrafo anterior, que você precisa tornar a exposição do Livro algo atraente, não insinuamos que você precisa pregar aquilo que a Igreja quer ouvir. Absolutamente!  O que você precisa é pregar a verdade de forma agradável, ou melhor, de forma “homilética”. Em outras palavras, o seu tema precisa ser “pregável”. Imagine que ao pregar em Genesis 4 você anuncie temas como:

“Caim e Abel”.

“O Primerio Homicídio”.

“Os Dois Sacrifícios”.

Em tese não tem nada de errado com tais temas; contudo, eles pecam no mesmo detalhe: não são pregáveis; ou seja, eles não comunicam um principio ou um valor que seja essencial para a vida de seus ouvintes. Portanto, você precisa combinar os sumários a sua disposição e também reescrevê-los com a descarada intenção de torná-los “pregáveis”. Lembre-se que de no Púlpito a sua obrigação precípua não é demonstrar seus dotes de exegeta, mas sim, possuir uma mensagem.

Um tema melhor seria:

“Caim e Abel. Qual deles é você?”.

“Caim – Símbolo de um Coração Impenitente!”.

Agora, você não tem em mãos apenas uma descrição técnica do conteúdo da passagem [como ocorre num sumário]; mas também, um tema para ser pregado aos seus ouvintes! Quando eu prego sobre “Quando Deus Se Alegra em Não Estar Presente”, desperto mais atenção do que simplesmente dizer: “A Ressurreição de Lázaro”. Nenhum de meus ouvintes conhece alguém que ressuscitou e nem pensa em conhecer um e, provavelmente, não precisa disso no momento. Porém, todos eles sentem – ou já sentiram – a sensação incomoda de estarem “sozinhos” em algum momento da jornada. E não é justamente sobre isso que João fala ao contrastar o drama da família de Lazaro, com o aparente desinteresse de Cristo?

Experimente ainda pregar sobre “A Fuga de Ló” ou sobre a “Destruição de Sodoma”, e depois pregar sobre “O Resgate de Ló – Emblema da Salvação Pela Graça” ou “Sodoma e Gomorra – Será Que o Homem Compreendeu a Mensagem?”. Quais destes temas são mais... “pregáveis”?!

Deve estar claro ao leitor, que para transformar um tema “técnico” em um tema “pregável”, faz se absolutamente necessário que o exegeta tenha descoberto o “telos” da passagem. Uma das tarefas do pregador é de buscar na hermenêutica qual o principio espiritual de valor permanente (universal) que a passagem contém. É sobre tal valor universal que ele irá pregar no Púlpito. Sem descobrir o “telos” da passagem, tudo que pode fazer é contar a seus ouvintes os detalhes técnicos sobre a “fuga de Ló”.

Iremos trabalhar, agora, na descoberta dos temas que iram compor a nossa série de mensagens sobre o Livro de Gênesis.

I – A PRIMEIRA COISA QUE EU FARIA É DAR UM TEMA PARA A PRÓPRIA SÉRIE DE PREGAÇÕES. Com isso, eu consigo ‘amarrar’ todos os demais temas sobre uma mesma diretriz; além de conseguir despertar um interesse maior por eles no coração dos ouvintes.

Além disso, se possível, eu ainda anunciaria para a congregação o tema da série e, paulatinamente, os temas dos sermões; a medida que a exposição avança. Isso também ajudará a Igreja a ter interesse pela leitura pessoal da Bíblia, uma vez que ela saberá exatamente qual o assunto do próximo serviço litúrgico.

Se a sua Igreja dispõe de um mural de recados, ou de um boletim semanal, o anuncio é extremamente simples. Você poderia, por exemplo, usar um slogan como o que se segue, a titulo de ilustração:

cronicasorigens

Apenas não cometa a loucura de se preocupar com o “marketing” de sua “série de exposições”, sem ter, antes, se preocupado com a exegese e a hermenêutica do Livro selecionado. Para poder anunciar que sua série tem por título “As Crônicas das Origens”, você precisa ter descoberto o “telos” central do Livro por meio do estudo sério, metódico e devocional do mesmo.

Por isso, este passo que eu coloco como sendo a primeira coisa a fazer, deve ser, na verdade, o último dos seus trabalhos. O colocamos aqui em primeiro lugar, tendo em mente que o pregador já terá feito a devida exegese dos textos a serem pregados. Ou seja, neste artigo estamos falando sobre como “montar” sua série de exposições; descobrindo seus temas principais por meio da seleção de pericópes.

II – AMARRANDO A SÉRIE

As Crônicas das Origens

Primeira Parte

O Deus da História

Sermão 01. “Origens do Universo: Descobrindo o Poder da Palavra de Deus” (Gênesis 1.1-2.3).

Sermão 02. “Origens da Família: Descobrindo o Cuidado do Amor de Deus!” (Gênesis 2.4-25).

Sermão 03. “Origens do Pecado: Descobrindo o Perigo da Rebelião!”. (Gênesis 3.1-24).

Sermão 04. “Orgens da Degradação: Descobrindo as Consequencias do Pecado!” (Genesis 4.1-26).

Observem o uso proposital do termo “descobrindo”. Qual o motivo? Basicamente dois;

a) dar unidade à seqüência de sermões; mesmo motivo que nos faz usar palavras-chave e frases de transição no corpo do sermão. Deve-se ter cuidado para não tornar a repetição excessiva e maçante; principalmente se a série for muito longa, como é o caso do Livro de Gênesis;

b) além disso, o termo “descobrindo” transforma a exposição do texto em “pregação”; ou seja, eu convido o ouvinte a participar do evento exposto de forma pessoal – ele sabe que aquela exposição irá conduzi-lo a um momento de apelo, no qual, precisará tomar uma decisão!

Observe também, que tal “amarração” da série lhe dá ainda uma importantíssima vantagem: a possibilidade de pregar séries expositivas de forma alternada. Assim, você não temerá o risco de pregar 50 ou 60 sermões consecutivos sobre o Livro de Gênesis. Uma vez que tanto o “slogan” como a “unidade” da série está registrada na mente de seus ouvintes, você poderá alterar a exposição Bíblia, a fim de tornar seu púlpito ainda mais variado. Por exemplo, com os quatro sermões acima, você pode iniciar em Janeiro a sua exposição sobre o Livro de Gênesis; em Fevereiro, você pode iniciar a exposição de um livro do Novo Testamento; com outros quatro sermões. No mês seguinte, Março, você retoma a série “As Crônicas das Origens – Parte II”; e assim consecutivamente.

Supondo, por exemplo, que você esteja expondo alternadamente Gênesis e Romanos, como apenas estes dois livros, você terá temas e sermões para pregar ininterruptamente por todos os domingos ao longo de mais de dois anos! Imagine o que tem a sua disposição em todos os 66 livros inspirados por Deus!

Se você tem, ou já teve, problemas para selecionar temas para suas pregações; estou certo de que a exposição bíblica possui eficiente antídoto contra este mal que aflige a todos nós.

No nosso próximo artigo, abordaremos outro tema muito importante: “Descobrindo o Telos: da narrativa ao sermão”. Não deixem de conferir. Nossa oração é que estes artigos possam abençoar a sua vida e o seu ministério.

ATENÇÃO!


Se houver demonar na atualização de nosso conteúdo, o motivo é problemas para acessar a net, somados a problemas de saúde na família. Peço a oração dos irmãos.

Graça e Paz!



6 comentários :

  1. excelente trabalho pastor, tem sido muito util e edificante para mim, espero que o senhor coloque mais artigos, eu estou copiando para o meu pc ( se o senhor não se importar, rs), obrigado pastor!

    ResponderExcluir
  2. marcelolemoseditor9 de maio de 2009 11:07

    Diego; fique a vontade para usar livremente o material do blog - apenas não se esqueça de citar a fonte, PRINCIPALMENTE quando se tratar de material que o Olhar Reformado buscou em outros sites ou livros. Nossa oração é que nosso ministério possa abençoar a todos os que aqui chegarem. Obrigado pela sua participação e pelo seu apoio e, se não for pedir muito, ajude-nos a divulgar este projeto.
    Paz e bem!

    ResponderExcluir
  3. olá pastor preciso expor um trabalho no seminario sobre pregação expositiva gostaria da sua ajuda um esboço ou algo deste tipo se poder me ajudar fico muito grato.

    nivaldo

    ResponderExcluir
  4. Pode contar comigo, no que eu puder ser de ajuda. Se quiser contar-me por e-mail, o endereço é: marcelolemos.editor@hotmail.com

    Paz e bem!

    ResponderExcluir
  5. a paz do senhor que Deus sempre te abencoe e sempre te revele algo que aprimorize os pregador eu sou grato 1 a Deus 2 vc pastor por mme direcionar com seus consselhos e como fazer uma bela pregacao juntando seu conhecimento com minha comunhao e oracao a Deus o rezultado e almas se rendendo ao senhor Jesus cotinui assim ater a vinda de Jesus e nos encotraremos no ceu de gloria amem;;;;;;;;;de geriones diacono da assembleia de Deus avivamento pentencostal

    ResponderExcluir
  6. [...] escrevi no artigo Pregação Expositiva, Parte III; a identificação de “pericopes” é uma fonte inesgotavel de temas para pregadores [...]

    ResponderExcluir

Comente e faça um blogueiro sorrir!

Reservamos o direito de não publicar comentários que violem a Lei ou contenham linguagem obscena.