Sobre a teoria da brecha em Genesis

Por Marcelo Lemos

Aparentemente, o texto bíblico nos fala de uma terra jovem, excessivamente jovem quando temos em mente os bilhões de anos que a ciência tem sugerido. Quem estaria com a razão? Devemos aceitar a teoria de uma terra jovem, ou aceitar que ela tenha bilhões de anos? Para tentar conciliar o que a Bíblia aparentemente diz, e os pressupostos científicos, nasceu a Teoria da Brecha, ou Gap, também conhecida como Teoria do Intervalo.

Antes de continuarmos, devo explicar o uso que acabei de fazer do termo “aparentemente”. Com isso, não quero dizer que a Bíblia, na verdade, ensinaria um “terra velha”, no sentido proposto pelos defensores da “Gap” (explicarei a teoria mais adiante); mas sim, que acredito que Deus simplesmente criou uma Terra adulta, assim como criou um Adão adulto. Em outras palavras, na linha do tempo, a existência da terra é um evento recente, porém, quando Deus a criou, a fez “adulta”, ou seja, como se ela já tivesse passado por todos os estágios 'naturais'. A melhor forma de ilustrar isso é Adão. Deus não criou um espermatozoide Adão, que precisou de 9 meses de gestação, e mais trinta para amadurecer; antes, Deus o criou homem adulto, de modo que se você olhasse para ele diria: “Este homem tem trinta anos!”, mas ele havia sido criado no dia anterior. Nada impede que o mesmo tenha se dado com a Terra. Apesar de ter sido criada 'ontem', de fato, o processo 'natural' exigido para se atingir seu estado atual, levaria bilhões de anos. De modo que, olhamos para a terra e dizemos: “Nossa! Ela tem bilhões de anos!”; mas na verdade, foi criada recentemente.

Aqui temos um dado interessante. Quando a ciência diz que a terra precisou de bilhões de anos para ser como é, na verdade está se dizendo que o processo natural para chegarmos até aqui levaria tantos anos; não é possível dizer que levou de fato, pois o processo de formação da Terra não é um evento observável. Portanto, sendo a ciência a observação dos fatos, é cientifico dizer que o processo levaria bilhões de anos (aqui temos um dado observável), mas não é cientifico dizer que, de fato, levou bilhões de anos, no máximo, se pode supor que isso aconteceu.

Entretanto, muitos teólogos consideram estas observações “ingenuas”, e buscam uma explicação – segundo eles – mais plausível para o caso. É o que ocorre, por exemplo, nas notas de rodapé da Bíblia de Estudo Dake, que a CPAD trouxe para o Brasil, sob uma multidão enorme de justificados protestos. Ao invés de simplesmente aceitar o que está escrito, ou seja, de que a terra era sem forma e vazia”, propõe-se a leitura “a terra tornou-se sem forma e vazia”. Com isso, se pretende sugerir que houve um longo espaço de tempo entre o versículo primeiro e o segundo, e que neste longo período (ou “brecha”, “intervalo”), teria ocorrido a evolução da terra, e quem sabe, até mesmo a evolução da raça humana.

Em síntese, trata-se de uma tentativa de conciliar as Escrituras com a Teoria da Evolução da Terra, e também do homem. Um esforço, na opinião deste escriba, absolutamente desnecessário.

A favor da CPAD há o fato de que ela amenizou um pouco a coisa, retirando da tradução o comentário de Dake, onde se alega que, na verdade, o Gênesis estaria falando de uma “recriação”, e não da “criação”. Mais ou menos assim: no primeiro versículo, Deus criou a terra, mas, entre ele e o versículo segundo, alguma coisa aconteceu, e a terra tornou-se sem forma e vazia”, e então, passa-se a contar o relato de uma nova criação.

Dake acredita realmente em tal teoria, a ponto de, comentando o versículo 28, escrever que o objetivo de Deus era “encher a terra com homens, como antes, quando Lúcifer reinava” (pg. 75). Vejam, na mente de Dake, havia espaço até mesmo para uma raça pré-adamica. Tal entendimento pode ser encontrado, com certa variação, em outros comentárias, como Derek Kidner, em seu comentário sobre o Gênesis, publicado pela Editora Vida Nova. Na opinião de Kidner, essa possível “raça pre-adamica”, explicaria as raças anteriores ao homo sapiens.

Poderíamos chamar tais opiniões de “evolucionismo teísta”. O evolucionismo ateu, ou materialista, considera a evolução como algo mecânico, aleatório, que se deu por um 'feliz' azar. O evolucionismo teísta, por sua vez, considera que a Evolução é um fato incontestável, mas que o próprio Deus teria acionado a marcha do processo evolutivo. Apesar de pessoalmente não ter nenhum dificuldade me aceitar os evolucionistas teístas como meus irmãos em Cristo, creio que eles minam a autoridade das Escrituras, a fim de se adequarem a determinados fatos científicos, que, na verdade, não exigem, por si só, tão adequação.

A quem acredita dessa forma, tenho a dizer apenas que, segundo Jesus, nunca houve nada antes da criação narrada em Gênesis; e que a criação de Adão é citada sempre como sendo “o princípio” da história humana (Mateus 19.4; Marcos 10.6; I Coríntios 15.21). Antes de Adão, não houve morte, é o ensino claro do Novo Testamento (Romanos 5.14; I Coríntios 15.21,22). Ao que me parece, rejeitar a simplicidade da narrativa de Gênesis, implica em alterar o significado do próprio Evangelho. Esta é uma pergunta que todo defensor da Teoria da Brecha deveria fazer a si mesmo: “Como posso crer que houve morte antes de Adão se o Novo Testamento ensina justamente o contrário?”.

O debate a respeito da literalidade ou não dos “seis dias da criação”, possui este mesmo pano de fundo. Tradicionalmente, sempre se entendeu que a Bíblia está falando de dias de 24 horas. No entanto, nem todos aceitam essa interpretação hoje. Acredita-se, em determinados círculos, que os “dias” podem ser, cada um, de milhares ou bilhões de anos – novamente, a intenção é encaixar o texto bíblico numa e outra teoria científica. O grande problema com tal interpretação é o seguinte: se Moisés falou se “seis dias” que podem significar “seis mil anos”, “seis bilhões de anos”, ou ainda “seis quadrilhões de anos” (caso alguma teoria passe a exigir tal soma), resta-nos admitir que ele não disse nada que significasse realmente alguma coisa. Ou ele disse “seis dias”, ou ele não disse nada!

Esta segunda teoria, também conhecida como 'Teoria do Dia-Era', precisa tornar simbólicas várias outras passagens das Escrituras. Talvez pareça fácil dizer que Gênesis 1 é um texto simbólico ou poético, mas isso fica mais complicado quando vemos que outras passagens bíblicas afirmam a mesma coisa. “Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou” (Exodo 20.11). “... em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, e ao sétimo dia descansou” (Exodo 31.17). 




Mesmo assim, os defensores do “Dia-Era” são bem contundentes em suas opiniões:

O “dia” da criação que é descrito como contendo “manhã e tarde” (sic) não é uma unidade de tempo que possa ser determinada com um relógio. É um dia divino no qual mil anos são como o dia de ontem (Salmo 90:4, margem). O dia primeiro da criação é um dia divino. Não pode ser um dia terrestre, pois ainda está faltando a medida do tempo, o Sol. Não ocasionará nenhum dano ao relato da criação, portanto, entendê-la dentro do ritmo de milhões de anos” (24). [Seria Deus impotente, incapaz de controlar o tempo??? Ele precisaria realmente do Sol??? De onde virá a luz da Nova Jerusalém???... lá não terá sol. (Ap 21:23-24)]” - Hansjorg Braumer, teólogo alemão.

“O naturalista fala convincentemente em termos de milhões de anos e eras evolutivas, enquanto o crente na Bíblia olha para os seis dias e fica perplexo, sem saber o que fazer ... Não é absolutamente irrazoável crer que “dia” (em Hebraico yôm), que pode ser traduzido literalmente como “período”, refira-se não a dias literais, mas a eras e épocas em que a obra criadora de Deus estava sendo realizada.” (25) [Deus ainda está descansando da sua obra, aliás o sétimo dia ainda não acabou, de acordo com essas interpretações liberais, canais, mundanas, diabólicas... quem teria maior intenção em desacreditar no que está escrito, se não o próprio diábo.]” - D. Stuart Briscoe, criacionista “progressista”, Estados Unidos.

Ocorre, como afirmamos, de se tentar conciliar a Escritura com esta ou aquela teoria sobre as origens, sendo que, em última análise, isso se dá ao preço de relativizar o Livro. Briscoe diz “o crente olha para os seis dias e fica perplexo, sem saber o que fazer”. O que esse crente deve fazer então, na opinião de Briscoe, é dizer: “Seis dias não são seis dias!”. Mas, acusem-me de ingenuidade se quiserem, não vejo a menor necessidade disso, e peço que reflitam uma vez mais no argumento sobre a idade aparente de Adão, citada anteriormente neste texto.

O evolucionistas-teístas são bem intencionados, não pretendo negar isso, mas são mais ingênuos que o crente simples, aquele que lê e “fica perplexo”. São ingênuos por acharem terem descoberto a chave hermenêutica, ignorada completamente pela Igreja do Deserto, e pelos autores neotestamentários. São ingênuos, ao darem a esta ou aquele teoria, a canonicidade que não possuem, permitindo assim, que avancem além de sua função primária, que é observar os fatos. Crer em “seis dias literais” não é uma questão de ciência, mas de cosmovisão. O mesmo vale para crer na tese do “Dia-Era”. A ciência jamais poderá provar qualquer um dos dois, pois não é algo que possa ser observado; assim, a minha opção entre eles penderá para o lado em que, neste assunto, eu tenho maior comprometimento.

12 comentários :

  1. Interessante, porém se DEUS criou já uma terra "adulta", como diz, como explicar os fósseis encontrados em diversas camadas sedimentares diferentes, e estas por sua vez revelam períodos geológicos diferentes....e para piorara segundo o relato de Gêneses, a morte só passou a ser possível após a queda...entendeu?
    Acho esta teoria improvável!!!!

    Paz!

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  2. A Paz do Senhor!

    Amado irmão,seu texto está BRILHANTE,FANTÁSTICO,GENIAL MESMO!!!

    E gostaria de transcre-vê-lo no meu blog!

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  3. Bem-aventurados aqueles que não viram e creram.25 de junho de 2011 13:52

    Ola querido Saudaões em Cristo.
    Bom no inicio de minha caminhada cristã, ouvia que na criaçao da terra deu-se em eras geológicas (dia-era), porém, nunca me convenci disto, pois encarar que Deus a fez em seis dias, é de nos deixar realmente perplexos com seu impressionante poder criativo e de revela-se a nós como um ser extremamente talentoso. Creio confiantemente "simplesmente falando" tudo veio a existir, e em seguida assim o avaliou a ser "muito bom", ou seja, perfeito. Achei interessante este artigo e concordo plenamente com o referido.

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  4. So queria dexar mais claro... Essa teoria dos foseis pode estar errada por que se Deus e perfeito ele deve ter criado os dinosauros e dito q os humanos nao estao conseguindo ''sobreviver'' por morrerem mais que nascem ai ele mandou o tal ''meteoro'' que matou eles. Pergunta: Deus Perfeito Sera? Por que ele nos criou pra no fim d tanto sofrimento ter 1 exercito?.......

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  5. Ainda não entendo por que a justificativa respaldada no versículo 4 do Salmo 90 não é razoável.
    Ele não disse explicitamente que correspondência da noção de tempo para Deus é diferente da percepção literalmente cronológica? E a pergunta levantada pelo Fábio também é coerente. Como os animais (que se tornaram fósseis) morreram se a morte ainda não havia antes de Adão?
    Aguardo ansioso a resposta pois o artigo me fez refletir bastante e gostaria muito de aprender com o que você tem para compartilhar conosco.

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  6. Olá Marcelo,
    Você poderia responder a pergunta que eu fiz por favor? Ela está neste último comentário neste tópico( foi o comentário que está com a data de 30 de janeiro de 2012 as 03:32).
    Abraços.

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  7. Eu gostaria de responder com mais tempo, coisa que não tenho tido esses dias. Deixo duas observações breves, e que possamos prosseguir.

    1) Primeiro, a questão do tempo em Genesis deve ser compreendida pelo estilo literário que encontramos lá, e isso desfavorece a teoria da brecha;

    2) Segundo, não é verdade que a morte inexistia antes do Pecado de Adão - pelo menos não sei de tal afirmação na Escritura.

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  8. Bem, em primeiro lugar obrigado por responder e parabéns por manter esse trabalho, com a seriedade e dedicação que você tem mostrado mesmo com o tempo restrito.
    A respeito das suas respostas: Muitas vezes eu acho difícil saber se devemos interpretar a linguagem empregada nos livros da Bíblia em um sentido literal ou "poético/conotativo". Você poderia me dar alguma espécie de direcionamento a respeito? E sobre a questão da morte não existir antes de Adão, eu tomei como base o texto deste tópico, em certo trecho está escrito "Antes de Adão, não houve morte, é o ensino claro do Novo Testamento (Romanos 5.14; I Coríntios 15.21,22)" Mas agora acho que entendi, você se referia ao fato de que não houve nenhuma morte e não que não havia a morte em si.
    Novamente obrigado.

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  9. Veja, eu me preocupo com o fato de Cristo tomar os relatos do Genesis como sendo literais, e não meramente simbolicos-alegoricos. Isso é, para mim, o fiel da balança. Do ponto de vista teórico é até legal discutir certos assuntos sob novos primas, porém, não creio que possamos saber mais sobre o que ali está Escrito do que o próprio Cristo sabia. Por isso me mantenho de modo bem conservador ao tratar aqueles textos.

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  10. Esta é uma pergunta que todo defensor da Teoria da Brecha deveria fazer a si mesmo: “Como posso crer que houve morte antes de Adão se o Novo Testamento ensina justamente o contrário?”.


    Respondendo a sua pergunta amado, segundo a teoria do GAP, não houve morte como você diz, simplesmente, de uma forma resumida, Deus criou a terra para os anjos (Gn1:1) pois a criação de Deus foi no KAEROS, não poderia ser para o homen pois o mesmo vive no tempo CRONOS, após a queda dos anjos Deus recria a terra para os homens, aí que entra Gn1:2, quando Deus recomeça a criar a terra, não houve morte dos anjos pois anjos não morrem pois são eternos (por isso que a biblia fala que o castigo deles e eterno, senão falaria que seria a morte, mais como nõa morrem, a morte nõa é possivel), a morte que pode ter acontecido foi espiritual, já que adão tbm morreu, e viveu mais 930 anos (vc sabe o sentido que quis dizer), portanto, esse INTERVALO que a teoria defende é baseada na BIBLIA ... é claro que temos várias opçãoes que devem ser respeitadas, mais se eu explanar a defesa dessa teoria agora seria muito longa para um simples comentário. Mais eu creio que realmente houve um GAP durante este tempo, já que devemos analizar a biblia como RHEMA e como LOGOS, pois Deus está nesse paralelo. Abraços amados, e qualquer dúvida: wilcomunidadefarol@gmail.com (email), ou MSN: WILsepian@hotmail.com

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  11. Eu acho que posso responder a respeito da morte não haver antes de adão, pois o novo testamento já vivia no tempo cronológico, ou seja, no tempo em que vivemos hoje, porém, como o tempo cronológico humano só passou a existir apo´s Adão ser retirado do jardim, pois antes disso ele vivia para não morrer (apesar de ter sido criado mortal), portanto não havia idade de adão durante o tempo no jardim, mais após isso criouse o tempo cronológico humano, antes disso temos o tempo cronológico da terra, que é diferente, pois o tempo cronológico começou no verso 16 de Gênesis 1, quando Deus cria o sol e a lua, só após isso que o tempo passou a ser cronológico, pois os calendários, ou são solares ou lunares, portanto, só depois de Deus criar o sol e a lua que o cronos passou a existir,... mais onde eu quero chegar, é que todo esse acontecimento dentro do GAP ocorreu no KAERÓS, e não no CRONOS, como o apóstolo paulo não viveu no KAERÓS, não pode citar o que aconteceu lá, já que só tem conhecimento do que aconteceu no tempo CRONOS ... será que fui claro? É mesma coisa ouvir alguém , por exemplo no novo testamento dizer que só houve um dilúvio, essa pessoa estaria mentindo? Não, só não teve o conhecimento do outro dilúvio que aconteceu no tempo KAERÓS, isso é simples entender... abraços .... qualquer coisa: WILsepian@hotmail.com .. MSN

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  12. É uma vergonha ainda haver idolatria com tanta força nos dias de hoje; a Palavra deixa clara que se tratando de Início o geneses traz uma linguagem poetica para uma compreenção universal, Deus não esta contido no tempo nem em corpo material, mas adiante afirma que as estrelas são para contagem do tempo da "criação" concebida seu propósito; dai existiram outros detalhes que não foram citados por não serem de utilidade alguma..., a idolatria as placas de igrejas com certeza não era esperada com tanta magnitude, a verdadeira teologia desconstroi parametros que centralizam o homem e seus conceitos temporais, se a verdade não agrada aos religiosos é indiferente; quem idealiza deus magico de pirlim-pim-pim não é a Bíblia, sendo o homem imagem e semelhança a Bíblia não traz o arquetipo adamico como detentor de poderes x-man

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